O caso do prefeito cordial que espancou a filha

Humberto Dantas

30 Novembro 2015 | 07h38

Difícil negar que vivemos numa era violenta e intolerante. Para piorar, isso é característica histórica de nosso povo. E assim fico com a fala de Chico Buarque reforçando a obra de seu pai, em documentário sobre outro livro brilhante: O Povo Brasileiro, de Darcy Ribeiro. A obra é da década de 90, o filme de 2000. Vale a pena assistir. Os quase 300 minutos são magistralmente bem produzidos e ainda contaram com Ribeiro vivo, falando sobre suas reflexões. Em uma das partes em que aparece, Chico faz alusão ao Homem Cordial, conceito desenvolvido por Sérgio Buarque de Holanda em Raízes do Brasil, buscando reafirmar a ideia que essa cordialidade em nada tem a ver com o que se poderia associar à pura doçura, bom tratamento e coisas do tipo. O conceito está associado a uma lógica que remete ao coração, às emoções que são extremas e nos transformam num povo que mescla amores e ódios exacerbados. Somos, assim, violentos e pouco afeitos aos limites das leis. Para piorar, como o sentimento tende a um coletivismo perigoso, parte dessa violência é corroborada por parcelas da sociedade. O bandido morre covardemente assassinado, parte da sociedade aplaude. A mulher desafia as indicações do marido e apanha, parte da sociedade aplaude. O filho promove algo errado aos olhos dos familiares e é agredido, parte da sociedade aplaude. Pois é.

 

Talvez pautado nesse tipo de aberração, lamentavelmente pudemos escrever faz alguns dias sobre o secretário municipal (Pedro Paulo, o réu confesso) que espancou a mulher no Rio de Janeiro, mais de uma vez, e além de permanecer no cargo tem grande chance de ser o indicado do prefeito para sucedê-lo com aval efusivo de seus coleguinhas de legenda. Por sinal, por falar no alcaide do Rio de Janeiro, mais uma vez ele está envolvido em escândalos. Além de bancar o agressor, foi citado na emblemática gravação que levou Delcídio Amaral para a cadeia. De acordo com as afirmações, a “falsa conta” de Romário na Suíça existiria e seu “desaparecimento” seria utilizado como moeda de troca para o Baixinho apoiar o seu “agressor de estimação” nas eleições de 2016. Será? As partes envolvidas negam, mas a despeito desse caso, a violência segue sendo disseminada.

 

Em Piracanjuba, cidade de 25 mil habitantes no interior de Goiás, o prefeito se notabilizou nos últimos dias por espancar a filha adolescente. Fotos dos ferimentos vazaram na internet. E Amauri Ribeiro (PRP) gravou um vídeo de cinco minutos para explicar o fato. Sua declaração resume um sujeito comum, um pai, um cidadão que não percebe, como muitos de nós, as complexidades das novas gerações e das inovações do mundo. Um homem que acredita que a violência educa, infelizmente. Apanhou do pai e bate nos filhos, numa sequência cultural que a lei não parece capaz de frear. Um traço que mostra o desespero de quem tem dificuldade de aceitar os novos tempos – como muitos tem. Ademais, a plena confusão entre o público e o privado, a lógica patriarcal que considera o espaço familiar acima do universo público. Aquela sensação de que no íntimo a regra é determinada pelo “dominante”, como se não existisse lei geral. O agressor também afirma que a exposição das fotos o faz sentir que a menina perdeu completamente os direitos. Que por ser filha do prefeito, homem público, ela deixou de ser gente, não é humana e não tem direito a nada. A super exposição pode ser mesmo um ceifador de liberdades, e sobre isso temos assistido muitos debates na sociedade. Mas é justamente porque a menina TEM direitos, que devem estar acima das regras domésticas, que as críticas avançaram. E se adensaram porque envolveu um agente público, que tem razões adicionais para expor o quanto deve ter apego às regras em TODOS os ambientes – espero que como administrador público ele saiba BEM o que isso significa.

 

Para terminar, seguidas vezes o prefeito apela para o fato de que como pai fará de tudo para não perder as filhas para o mundo. O problema maior está aí: a lei limita essa posse, esse sentimento imensurável de que um pai tudo pode sobre sua cria. A barreira entre público e privado, a força do pacto coletivo são ignorados pelo agente. A lei, feita por nossos representantes, confina esse universo de posse. E se as gerações de hoje estão “impossíveis”, a questão é outra. Por sinal, para voltar na discussão inicial: parcelas da sociedade que assistiram ao vídeo e se depararam com a notícia apoiaram a atitude do pai nas redes sociais. Palavras fortes, críticas à moral da menina e uma série de bizarrices sobraram. Fico com uma publicável: “Parabéns prefeito. Tem que dar outra surra por postar as fotos”. Será mesmo? Mas o que a menina fez? Onde estão as fotos? Isso pouco importa. Isso sim é um problema que deveria ficar restrito à família. Do resto a lei precisa cuidar, e é isso o que criticamos aqui.