O brinde do prefeito!

Humberto Dantas

09 de maio de 2016 | 06h57

Faz alguns anos, desde meados da primeira década dos 2000, tomei contato com o mundo dos vinhos. Recentemente, inclusive, minha esposa resolveu acreditar na minha dedicação e reservou um espaço no seu blog para eu falar sobre minhas poucas aventuras nesse universo. Enfrentei o convite como algo capaz de me fazer relaxar. Política demais cansa. Pensar nos vinhos e lembrar passagens do enoturismo me agrada muito. Se um dia tiver curiosidade, confira aqui o Misturinhas da Ka.

Um dos hábitos que adquiri, pelo menos desde 2011, foi guardar rótulos dos vinhos que tomo num conjunto de cadernos. A brincadeira se transformou no diário do casal, e recentemente, diante de uma notícia estranha, consultei diversos livros, fui aos mais diferentes sites, relembrei as visitas que fiz a muitas casas que produzem espumantes e recorri aos meus tradicionais cadernos. Em nenhum deles encontrei o espumante espanhol (cava) Carta Nevada, produzido pela Freixenet, bastante comum em lojas de aeroportos e vendido no Brasil por menos de R$ 70, descrito como um vinho “envelhecido em barrica de carvalho por 12 meses”. O licor de expedição, nesse caso, até passa esse período adormecido, mas definitivamente essa terminologia não é comum na descrição de espumantes. Pois bem: para a prefeitura de São Francisco de Assis, no Rio Grande do Sul, trata-se de característica importante. Bem como é relevante destacar que um espumante rosé brut deve harmonizar com carnes, arroz e massa. Ou seja: deve ser uma bebida versátil.

Mas o que a Carta Nevada e um brut rosé, descritos como vinhos de origem espanhola, a despeito de as Serras Gaúchas e muitos dos melhores espumantes do mundo estarem ali perto, repousando a cerca de 500 quilômetros de São Francisco, têm a ver com uma prefeitura? Simples. E ao mesmo tempo complicado. De acordo com matéria do G1, num processo licitatório da prefeitura local apareceu um pedido de 32,4 mil garrafas desses vinhos espanhóis. Oi? Isso mesmo: a despeito dos 19 mil habitantes, dos tempos difíceis e do fato de a compra estar relacionada à alimentação de creches e escolas municipais, lá estava a bebida.

Horácio Brasil foi eleito pelo PP, e como prefeito alegou à reportagem, conforme trechos entre aspas na matéria global, que deve ter havido algum engano, e que não aceitará tal exorbitância. Até aí tudo bem: vai ver que um servidor desatento confundiu, por exemplo, a lista do próprio casamento com a quantidade de achocolatados. E lançou no edital o que deveria ter fechado com algum Buffet. Mas fica muito estanho quando o prefeito diz que “não deveriam ter colocado essa quantidade”. Opa!

E qual seria a quantidade ideal de vinho espumante para uma prefeitura adquirir num edital de alimentação infantil? Por que tem que ser espanhol? Num estado que produz espumantes de tão alta qualidade, não seria o caso de, em sendo mesmo necessária a aquisição para algum tipo de comemoração, permitir que os produtores brasileiros participassem do processo? Sinceramente falando, em eventos que participei em alguns países, nunca vi servirem bebidas que não fossem locais. Nas viagens a trabalho que fiz em tempos recentes, por exemplo, à Alemanha, ao Uruguai e aos Estados Unidos, nunca deixei de beber o que se produz no país, e por vezes, especificamente, na região do evento. Tristes costumes. Posso imaginar que alguém, com bastante influência no gabinete, pense que é chique o contribuinte arcar com esse tipo de compra. Por fim, defendendo e enfatizando o produto local, deixo claro: o Brasil produz coisa infinitamente melhor e mais barata, no mundo dos espumantes, que a comum Carta Nevada. E possui borbulhantes rosados bem agradáveis – se é que é mesmo necessário esse tipo de compra.