O ataque dos políticos à imprensa

Humberto Dantas

22 de fevereiro de 2016 | 07h06

A organização Repórter Sem Fronteiras tem um ranking cujo objetivo é medir a liberdade de imprensa. Esse princípio faz parte do conjunto de valores que regem uma sociedade democrática. Não existe democracia sem fontes alternativas à mensagem oficial que ofertem um conjunto minimamente livre de informações. Num total de 180 países medidos pelo indicador o Brasil está ali no meio do caminho – era o 99º em 2015, com avanço de 12 posições em relação a 2013. No continente situava-se atrás de Uruguai, Chile, Argentina, Peru e Bolívia. E à frente de Venezuela, Equador, Paraguai e Colômbia.

A distância entre olhar um resultado amplo desse tipo e sofrer na pele com a truculência de quem imagina comandar a pauta da imprensa é algo abissal. Sem muito alarde e desprezando fazer uso de práticas de auto-defesa, passei por algo assim quando trabalhava na Rádio Estadão. Depois de criticar uma medida tomada por um certo governante recebi telefonema de um sujeito que se dizia meu amigo, e que de fato eu até imaginava ser. Ele afirmava ter sabido por terceiros (!!!) de uma fala minha contra a tal atitude governamental, e ligava para tirar satisfações. Mais de uma vez afirmou que fazia aquilo como amigo, e não como membro do secretariado. Mas como “brother” que era, não abriu mão de usar a secretária oficial, a pseudo-força do seu cargo e o telefone do órgão público. Mostrou-se ali um sujeito “efetivamente alinhado” aos parâmetros básicos da “boa amizade” e da “democracia”. Reportei o caso ao meu diretor, ouvi que “mensagens desse tipo” são comuns e esqueci o assunto. Ao encontrar o sujeito num restaurante, meses depois, ele me cumprimentou com naturalidade. Não recebeu de volta qualquer sorriso, sequer me levantei da cadeira. Mas tenho certeza que ele deve ter imaginado, por ser desprovido de qualquer valor democrático razoável, que estava tudo bem. Deixemos pra lá, desse tipo a natureza cuida. O assunto aqui é mais recente.

Em Araçatuba-SP, profissional da Folha da Região, de onde sou fonte como cientista político faz anos, sofreu com a truculência de políticos contra a imprensa. Esse texto, em solidariedade ao repórter Ronaldo Ruiz, aborda dois aspectos centrais da violência retratados pelo jornal. O vereador e ex-presidente da Câmara Municipal, Jaime José da Silva, do PTB, solicitou em “tom elevado”, na sala de imprensa, que a publicação evitasse o uso de fotos que o deixassem “com cara de palhaço”. Claro que imediatamente fui conferir o material iconográfico, e ao me deparar com as imagens não encontrei o nariz vermelho, o cabelo colorido, a cara pintada e qualquer outro tipo de adorno que caracterize o respeitável profissional do circo. Encontrei, sim, um homem comum, um senhor que na foto merece respeito. Um homem público que, se está insatisfeito com seu semblante, tem excelentes opções no ramo dos cosméticos e da medicina plástica. Custa caro, mas ele tem.

Assim, o pior está por vir: Jaime também não estava contente com o tom das notícias que tratavam do parecer do Tribunal de Contas do Estado que considerou irregulares as contas da casa parlamentar que ele presidia no exercício de 2013. Notemos aí que a história é outra, e a culpa não é da imprensa, da transparência ou da notícia. Normalmente, em casos assim, a responsabilidade é do acusado e, em partes, do eleitor que lhe ofertou a oportunidade de representá-lo. Para tais casos não existem creme, maquiagem ou plástica. Aqui o vereador deve se defender, com todo o direito, na justiça – onde no TCE o processo travou em pedido de vista na última semana. Por sua vez, o eleitor deve avaliar de forma acurada como agir diante das urnas em outubro desse ano. O ponto que envolve o voto não se restringe, obviamente, à Araçatuba e tampouco ao eleitorado do insatisfeito Jaime.

Por fim, lamento que o ocorrido tenha se dado naquela cidade. Já estive nesta mesma Câmara Municipal proferindo palestra a convite do PSDB local. O parlamento é agradável, bem estruturado e tem bons sujeitos envolvidos com a política. Pena, no entanto, que por lá ainda tenha morada esse tipo de aberração.

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