Novembro Negro

Eder Brito

25 Novembro 2015 | 08h24

Os caras estavam trabalhando em pleno feriado, 20 de novembro, Dia da Consciência Negra. Chegaram à lanchonete para entregar as cervejas ao gerente do local. Eu não estava lá, mas imagino que aquela não era a experiência mais agradável do mundo: quem é que se sente plenamente feliz trabalhando em um feriado? E se o trabalho significa um fardo pesado de cervejas que não estão geladas e que você não vai beber, talvez a sensação seja ainda pior. Talvez. Eu não estava lá, quando o fato ocorreu, no Rio de Janeiro. Mas sinto que sim. Certo mesmo é que a experiência se tornou inquestionavelmente desagradável quando o gerente do restaurante Garota da Tijuca, no decidiu recebê-los com uma piada de muito mau gosto. Ofereceu uma banana a cada um dos entregadores negros, como uma suposta homenagem, em celebração ao Dia da Consciência Negra. Foi preso por injúria racial.

Envio meus cumprimentos às vítimas. Eles decidiram não “deixar pra lá”. Decidiram não responder com um sorrisinho amarelo constrangido. Decidiram não dizer que “estão acostumados” com esse tipo de brincadeirinha supostamente inofensiva. Decidiram não ser a minoria conformada, que fica esperando para ver se um dia isso tudo passa. O gerente já foi demitido do local, segundo notícia do site Rio Alerta.

Não preciso nem lembrar da jornalista Maria Júlia Coutinho no Jornal Nacional, tampouco da atriz Thaís Araújo no Facebook. A essa altura todos já se lembraram. É tudo muito recente. 1888 tá logo ali e a gente ainda está tentando superar. Agora você também já lembrou da torcedora do Grêmio e do goleiro do Santos, o Aranha. Talvez até se lembre do garoto negro, filho adotivo de um homem branco, expulso de uma loja na chiquérrima Rua Oscar Freire quando a vendedora o confundiu com um menino de cor escura que “não podia vender coisas ail”. Era para se lembrar mesmo. E na sequência você vai lembrar que tem um exército de gente dizendo que não existe racismo no país. Que tudo é brincadeira. É vitimização do negro. É o nosso jeitinho de ser. Somos brincalhões. Rimos da cor do outro?

Daí o país acorda e descobre que uma Câmara Municipal, no sul do país, em Curitiba, viu um de seus vereadores ofender um colega com outra piada de mau gosto. Disse que negros entram em igrejas evangélicas apenas para “poder chamar os brancos de irmãos”. Pediu desculpas publicamente, inclusive na TV. Não sabia que a brincadeira magoaria. Não sabia que era ofensivo. Não tinha intenção. O ofendido, vereador Mestre Pop (PSC) registrou boletim de ocorrência por injúria racial contra Zé Maria, o piadista, vereador pelo Solidariedade. Tudo isso no mesmo Estado em que a FIEP (Federação das Indústrias do Paraná) entra com liminar na Justiça para pedir o cancelamento do feriado que celebra a Consciência Negra (alegando, é claro, outros motivos mais técnicos).

O preconceito racial é uma patologia. É uma ofensa à democracia. Diante de um mês como esse, diante de um ano como esse, assumo um posicionamento conscientemente parcial. Que cresçam as Secretarias Municipais de Promoção da Igualdade Racial! Que borbulhem nas Prefeituras os Conselhos Municipais de Promoção da Igualdade Racial! Que as Câmaras Municipais vejam cada vez mais vereadores negros eleitos! Que as políticas de cotas não cessem, até que sejamos um país verdadeiramente igual e efetivamente livres do racismo e do ódio cegos. São esses espaços, ações e políticas, nas cidades, no cotidiano das pessoas, que farão com que a luta e as vitórias sejam diárias e que o 20 de novembro seja sempre a festa de celebração dessas conquistas.