Nessa longa estrada da vida…

Humberto Dantas

15 Janeiro 2014 | 08h00

As principais leis que regem a comunicação dos governantes com a sociedade estão contidas nos códigos eleitorais. Além de atender princípios constitucionais, o intuito é conter abusos nas eleições. Políticos adoram “investir” dinheiro em estratégias de comunicação que têm uma relação direta com a época de pedirem votos. Dizem os especialistas que é assim pelo mundo, mas aqui nossa cultura permite exageros. A justiça, que poderia punir, pouco faz de racional. Não podemos dizer que políticos não foram condenados por abusarem da comunicação, mas julgamentos parecem tão políticos quanto o próprio processo eleitoral. Uma pena, mas não para aqui.

 

Estrada, asfalto e concreto são substantivos associáveis à corrupção no Brasil. Órgãos federais ligados ao Ministério dos Transportes estão envolvidos em escândalos recentes, enquanto em São Paulo existe até mesmo um grupo apelidado de Máfia do Asfalto. Mas qual a relação entre comunicação e rodovia? Ela é absoluta. Quem nunca viu uma placa de obra pública na estrada? Está aí uma forma de os governantes se comunicarem com os cidadãos. Lançam obras, colocam placas com seus símbolos governamentais, afirmam estar trabalhando para nosso bem estar, cinicamente pedem desculpas pelo transtorno e costumam estampar quantos milhões estão sendo gastos ali. Para os sujeitos comuns ficam sempre as mesmas dúvidas: custou isso mesmo? Podia ter custado menos? É muito dinheiro? É um trabalho de qualidade? Poderia ser mais rápido?

 

Respostas a tais questões são complexas e exigem conhecimento e pesquisa. Mas a sociedade resolveu se vingar dessas placas: com placas. Afinal de contas, é utilizando uma mesma língua que as pessoas se comunicam melhor. Assim, em meados de 2013 a sociedade de Tapejara, cidade com 20 mil habitantes no norte do Rio Grande do Sul, se mobilizou para demonstrar a indignação contra os perigos trazidos por uma obra inacabada numa estrada. Longe de assistirem investimentos consistentes na rodovia distribuíram placas ao longo de seu curso com dizeres, no mínimo, desafiadores: “cuidado, trecho sob efeito da corrupção, ande devagar”, “os políticos andam como inimigos do povo” e “cuidado, trecho sob a falta de vergonha do governo, ande devagar”. Abaixo dos dizeres de cada placa a frase padrão: “por favor, só remova a placa após a conclusão da obra”. Simples assim, afinal de contas contra a corrupção deve haver algum modo de a sociedade ser ouvida pela classe política. É claro que alguém pode considerar o gesto ofensivo e antiquado. Antiquado? Perfeito, lembremos que Tapejara significa “ser antigo” e deu nome a um pteurossauro brasileiro. Isso mesmo, um “dinossauro voador” dos tempos cretáceos. Ou seja, do tempo da mentalidade de alguns dos nossos administradores públicos. Quer ver como funciona? Após a instalação das placas a estrada recebeu melhorias. Poucas, verdade, mas nessa longa estrada da vida…