Não às Olimpíadas

Humberto Dantas

08 de agosto de 2016 | 06h56

Pelo que deu para entender funcionava mais ou menos assim: as cidades se inscreviam para receber a tocha olímpica num verdadeiro périplo pelo país. Havia uma lista com várias exigências vindas dos organizadores. O fogo esportivo começou a circular no começo de maio, por Brasília, e passou pelos 27 estados, somando mais de 330 cidades em três meses. Pense na oportunidade: em pleno ano eleitoral, o que representaria para um prefeito levar a cerimônia para a sua cidade?

Para muitos uma oportunidade de brilhar, pegando carona no evento que foi aberto com glamour, e não deixou em sua cerimônia o semblante de gambiarra apontado. Pudera: mesclou os fogos de um dos réveillons mais pirotécnicos do mundo, o carnaval dos desfiles mais fantástico do planeta, a competência de uma coreógrafa e de um cineasta geniais, a capacidade de criar e sonhar de um povo conhecido por isso e alguns dos ritmos mais respeitados do universo da música: o samba, a MPB e a Bossa Nova. Tinha como dar errado? Com todo o respeito: claro que não. O Rio de Janeiro é festa. Se as medalhas virão aos montes? Eu duvido. O país não investe no longo prazo. Sabe fazer festa, mas falha estrutural e psicologicamente em termos esportivos. Paciência. Isso é tema pra tese, e nosso espaço aqui olha pras cidades e não para os esportistas.

Assim, volto ao tema central: como prefeitos poderiam recusar o fogo olímpico? Três deles, ao menos, recusaram. E um brigou. De acordo com a Gazeta On Line, do Espírito Santo, as mineiras Gouveia, Ipatinga e Betim disseram que não teriam os recursos necessários para uma série de ajustes locais. A última delas afirmou que precisaria de R$ 180 mil para se arrumar, e isso estava fora dos planos. A crise econômica e a falta de dinheiro para o pagamento de funcionários foram os argumentos centrais – realmente está difícil demais. Por sinal, pelo país não faltaram servidores públicos com faixas e protestos mais incisivos contra a tocha, e em nome de seus respectivos direitos trabalhistas. Assim, o NÃO fez sentido, e curiosamente as recusas não parecem atender a aspectos políticos ou ideológicos amplos. Betim está nas mãos do tucano Carlaile Pedrosa, Ipatinga é controlada pela petista Cecília Ferramenta e Gouveia pelo verde Fausto.

Por fim, em Palmas, capital do Tocantins, a tocha passou, mas a prefeitura se retirou com Guarda Civil e departamento de trânsito depois que o governo estadual afirmou que a cerimônia não podia passar por um bairro taxado de inseguro. Enfim: o que não faltaram foram conflitos e justificativas austeras para dizer NÃO à Olimpíada, a despeito da beleza dos jogos e dos gastos extraordinários em momento tão delicado.

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