Nada de novo, nem mesmo onde a novidade está no nome

Humberto Dantas

06 Março 2017 | 07h12

Todo mundo procurando uma nova forma de se fazer política, e a democracia representativa segue em sua crise. Falam desse declive desde a década de 80, ou seja, quando o Brasil comemorava a volta do voto direto para presidente uma parte do mundo já estava virando as costas para a escolha pura e simples dos políticos. E o tempo foi passando.

A questão, no entanto, é imaginar o que seja essa forma nova de se fazer política que passa por cima dos representantes e do voto. E o primeiro desafio é fazer os insatisfeitos entenderem que se eles não votarem, ou ignorarem o processo eleitoral, é a vontade de quem foi que irá prevalecer – que vontade é essa? Não é à toa que tantos teóricos falam na escolha “do menos pior” ou pelo menos do voto “contra alguma coisa”. Isso se discute, ao menos, desde a década de 90 com base na crise de representação. Mas continuamos empurrando cidadãos pra fora do sistema como se isso resolvesse alguma coisa. Sob as regras atuais não resolve, e quem se afasta sozinho deveria se unir e pensar: “vamos eleger, cobrar e acompanhar gente pra mudar isso tudo”. Será?

Em 2016 algumas cidades registraram abstenções consideráveis. Em sete delas os percentuais, de acordo com matéria do G1, ultrapassaram 30%. Isso representa dizer, arredondando os resultados, que um em cada três eleitores cadastrados não apareceu pra votar. Em Minas Novas e em Rio Vermelho, ambas em Minas Gerais, efetivamente o terço de ausências foi ultrapassado. Na primeira, a recordistas, foram 34,8% e na segunda 33,5%. Somam-se a eles mais 1.441 votos brancos e nulos em Minas Novas (quase 10% dos comparecimentos) e quase mil em Rio Vermelho (12% das presenças). Mas os vencedores são conhecidos e estão lá. O que desmotivaria o comparecimento?

A resposta pode ir do descaso à meteorologia, do cadastro eleitoral à plena desilusão, mas o fato é que a realidade em Minas Novas parece não carregar a sugestão positiva atrelada à novidade que o nome da cidade sugere. No final de setembro o prefeito do PPS, Gilberto Gomes de Sousa (Gil), que foi derrotado em sua tentativa de recondução, foi vítima de um atentado. O carro que usava em um dia intenso de campanha levou seis tiros do garupa de uma moto enquanto circulava entre comunidades – ninguém saiu ferido, algo minimamente estranho, e supostamente conhecido. Em 2013, o então eleito teve suas contas de campanha inicialmente rejeitadas, num capítulo adicional das “novidades”. Em dezembro de 2016, outra “inovação”: o Ministério Público ofereceu denúncia contra o prefeito sob a acusação de desviar recursos federais da educação. O enredo se repete em um circuito nacionalizado aparentemente oval. E o eleitor deveria procurar, em tese e nesses casos, a novidade, o novo, a renovação – algo que parece ter ocorrido na região, pois no Vale do Jequitinhonha, 21 prefeitos buscaram a reeleição e apenas cinco foram reconduzidos (24%). Quais desses são efetivamente novidades?

Pois bem, a sensação de que a política volta sempre aos mesmos pontos nos leva ao fato de que Gil está na lista dos 21 que perdeu a eleição, e nesse caso para Aécio. Não o Neves, o famoso mineiro, mas o outro, o Aécio local, o Aécio Guedes. Que em 2012 era seu… Vice! O nome da chapa, inclusive, era: “juntos alcançaremos o bem comum”, e fico imaginando que bem seja esse. Já em 2016, separados, rachados, o slogan escolhido foi “Minas Novas Unidas”, e lá estavam 16 legendas, incluindo o PRB do vencedor, o PV do novo vice, o PMDB, o PT e assim por diante, apontando que “muita coisa realmente mudou”.