Nada de folia!

Humberto Dantas

28 de fevereiro de 2014 | 08h08

Não importa qual o sentido histórico do Carnaval. O fato é que no Brasil ele é sinônimo de tradição, festa, folia, por vezes até exacerbada extrapolação. Mas quanto custa um Carnaval? Não estamos falando aqui da fantasia, do ingresso para o baile ou do abadá para a farra no bloco. Tampouco do quanto os fígados podem sentir ou dos proibitivos descuidos íntimos. Estamos falando de dinheiro público. Quando uma prefeitura resolve organizar uma festa dessa natureza quanto sai dos cofres? Quanto vale o show? Quanto custa a parada?

 

Depende. Alguns carnavais são tão tradicionais e suntuosos que custam milhões e envolvem as três esferas de poder. São os casos do Rio de Janeiro, Salvador, Recife etc. Mas a pergunta seguinte é mais relevante: vale o investimento? Depende, em muitos lugares vale. E a primeira forma de respondermos isso é calculando os retornos. A cidade arrecada mais? Sua rede de comércio e serviços ganha? São geradas oportunidades? Coisas assim ajudam a pensarmos se esse tipo de festa compensa. A segunda questão é: a alegria gerada merece o dispêndio? Nesse caso a questão é averiguar algo mais subjetivo: a felicidade do povo. Há quem pense que todos gostam, há quem saiba que não. Há quem vibre com a festa, há quem sofra alucinadamente. E diante disso existem cidades que simplesmente cancelam a ode ao momo.

 

Em Petrópolis, em 2013, o prefeito Rubens Bomtempo suspendeu os festejos e declarou que investiria o milhão imaginado para auxiliar escolas de samba em saúde. Seu nome correu o mundo, as redes sociais o abraçaram, o político virou xodó de uma imprensa que ao mesmo tempo em que gosta de mostrar a festa é capaz de afagar atitudes razoáveis como essa. Na mesma linha isso já havia ocorrido em outras cidades. Em tempo de tragédias ocorridas em virtude das chuvas os festejos costumam ser cancelados. Mas aqui parece diferente: a decisão não tinha o objetivo de sanar um drama, mas sim minimizar o triste cotidiano dos usuários de um serviço. A pergunta final então é: o dinheiro foi efetivamente gasto em saúde? Não há registro claro disso. Mas há exemplos semelhantes e atuais.

 

Em 2014 a baiana Jiquiriçá é bi-campeã na atitude. O prefeito Waldemar de Andrade afirma ter assumido a prefeitura imersa no caos. E hoje prefere apostar em estradas pavimentadas e salários em dia. Por razões semelhantes, Ettore Labanca cancelou o carnaval em São Lourenço da Mata. Ali a economia será de R$ 500 mil. A farra fica para junho, pois lá está a Arena Pernambuco, palco da Copa do Mundo nos arredores de Recife. Senador Guiomard, no Acre, também suspendeu a bagunça na rua. O prefeito James Gomes alega contenção de despesas. Em Rondônia, Alex Testoni abdicou da alegria em Ouro Preto do Oeste, carinhosamente chamada de OPO. A razão, no entanto, é outra: o MotoCross. A cidade prefere eventos esportivos. Por fim, a despeito de outros exemplos, em Itabira, terra de Carlos Drumond de Andrade cantada em samba enredo memorável da Mangueira no Rio de Janeiro, Damon de Sena rasgou a agenda com o Araketu e Margareth Menezes para conter mais de R$ 400 mil em cachês – a festa está mantida com atrações menos expressivas. Como dizia o samba de 1987, entoado por Jamelão em homenagem ao poeta mineiro: “na ilusão de um sonho, achei”. Achamos o que? Prefeitos capazes de zelar pelo recurso público… Será mesmo?

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