Mulher o bastante?

Eder Brito

26 de agosto de 2015 | 22h12

A cada dois anos, em média, os partidos políticos iniciam um corre-corre peculiar. Vão em busca de mulheres, interessadas na filiação e, principalmente, em se tornarem candidatas. Não fazem isso porque são militantes da igualdade de gênero, mas porque precisam cumprir a legislação eleitoral, que obriga as legendas brasileiras a apresentarem pelo menos 30% de candidaturas femininas. É uma ferramenta importante, que tem ajudado a aumentar o número de vereadoras, deputadas e senadoras Brasil afora. Mas a desigualdade ainda é gritante. Corra até a sala, sintonize seu aparelho na TV Câmara ou na TV Senado e tente encontrar algum ser humano que possua um órgão genital feminino. É um ambiente absolutamente masculinizado.

Além dessa dificuldade, triste herança de nossa história, a política nacional ainda sofre com figuras femininas que se comportam de maneira estranha, mesmo depois de eleitas. Em 2013, ficou “famoso” o posicionamento da vereadora de Recife (PE), Michelle Collins. Durante uma sessão da Câmara Municipal, em discurso contrário à decisão do CNJ (Conselho Nacional da Justiça) que aprovou a celebração de casamentos homossexuais em cartórios brasileiros, Michelle aproveitou para defender a “família tradicional”. Alertada por um colega vereador sobre a luta dos movimentos feministas que garantiram, por exemplo, o direito de eleger mulheres para a vereança, Collins não teve medo de soar contraditória. “O fato de uma mulher estar aqui na tribuna não muda o fato de ela ser submissa ao marido. Também está errada a mulher que, após conquistar seu direito e seu espaço deixa de ser submissa ao homem. O homem está acima da mulher.”, vociferou na ocasião. Michelle, que usa o título “Missionária” para acompanhar seu nome (inclusive nas urnas) é evangélica e também apresenta o programa “Mulheres de Fé” na rádio Maranata em Recife. É casada com o Pastor Cleiton Collins, deputado estadual em Pernambuco. Michelle só não foi submissa ao marido na hora de se filiar: ela é do PP, ele é do PSC.

Outra mulher que entrou para a política graças ao companheiro foi Lidiane Leite, prefeita de Bom Jardim, no Maranhão. Quando seu namorado, Beto Rocha (cujo nome verdadeiro, ironicamente, é Humberto Dantas dos Santos) teve a candidatura a prefeito impugnada, Lidiane tomou a frente e assumiu a campanha. Foi eleita, prometendo erradicar o analfabetismo do município. Mas também prometeu que Beto participaria da gestão, junto com ela.

Na semana passada, a Polícia Federal iniciou a Operação Éden, que investiga denúncias de desvios de verbas federais para merenda escolar e reforma de escolas. Parte das investigações já constatou que Lidiane só cumpriu uma das promessas. Não erradicou o analfabetismo em Bom Jardim, mas permitiu que o namorado participasse de sua gestão. Beto já foi preso pela Polícia Federal. Lidiane teve prisão preventiva decretada e está desaparecida.

Dias atrás, tive o prazer de conversar por duas horas com uma mulher que já foi prefeita e deputada. Nilmar Ruiz viveu experiências únicas em Palmas (TO) e, hoje em dia, virou uma espécie de professora-de-como-a-mulher-deve-se-portar-para-enfrentar-a-política-brasileira-machista. Iniciativa louvável de quem aprendeu muito e tem muito a ensinar, mas ao mesmo tempo meio triste, pois as mulheres não deveriam ter que “aprender a se portar” ou “lutar por espaço”.

Mulheres participam muito do cotidiano da gestão pública, inclusive nas esferas de controle social. Vá a uma reunião de conselho gestor na Unidade Básica de Saúde do seu bairro ou qualquer conferência pública de assistência social ou mesmo passe rapidinho por uma reunião de APM (Associação de Pais e Mestres) em uma escola municipal. A mulher é maioria nessas esferas de participação, mas ainda é uma minoria vergonhosa em outras arenas. Como “transferir” isso? Como fazer que o respeito seja natural o bastante para que nenhuma mulher tenha que aprender a “ser durona” para sonhar em ser eleita? Não sou homem o bastante para tentar responder sem a ajuda delas.

 

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