‘Muletas’ pra que te quero

Camila Tuchlinski

05 de setembro de 2014 | 08h00

‘No que se refere’, ‘temos que ter clareza’, ‘em primeiro lugar’. Esses são alguns dos ‘termos-muletas’ dos principais candidatos à presidência da República em 2014. E é fácil identificá-los, especialmente quando a fala ou discurso está ficando cansativo. Ou o discurso fica cansativo quando usam essas muletas?

Há um mês acompanho o cotidiano dos três líderes na pesquisa eleitoral: Dilma Rousseff (PT), Marina Silva (PSB) e Aécio Neves (PSDB). Quando discursam em agenda de campanha ou dão entrevistas, lá estou eu ouvindo detalhadamente o que defendem ou atacam, o que propõe ou o que prometem. Costumo transcrever, na íntegra, o que falam. Por muitas vezes, não consegui acompanhar o raciocínio do candidato. Então, percebi os cacoetes, as repetições e as tais muletas.

Esses termos surgem de forma viciada ou fora de contexto, repetidos quase que de forma automática pelo político. Nós, ‘reles mortais’, também usamos o recurso. Exemplos: ‘como eu estava falando’, ‘veja bem’, ‘entende’, ‘tipo assim’, etc. O detalhe é que, no discurso político, o objetivo é convencer o ouvinte, ou receptor da comunicação, de algo que se queira conquistar. No caso, o poder.

A ‘muleta’ usada pela presidente Dilma Rousseff, candidata à reeleição, é conhecida. Quando a petista termina uma explicação e vai emendar outra, costuma dizer ‘no que se refere’. Não seria tão evidente, se o termo não fosse repetido muitas vezes. O tucano Aécio Neves usa o recurso sempre quando quer enfatizar algo ou quando percebe que não foi convincente: ‘temos que ter clareza’. Nota-se que o termo, na pronúncia, é dito pausadamente, como se estivesse separando sílabas: ‘temos que ter cla-re-za…’. Marina Silva, candidata pelo PSB, também tem o seu cacoete. Ao transcrever sua fala, percebi que Marina sempre diz ‘em primeiro lugar’, porém nunca menciona ‘em segundo lugar’. O repórter pergunta: “Marina, você é contra o casamento entre pessoas do mesmo sexo?”. A candidata: “Em primeiro lugar…(blá, blá, blá)”. E não vem um segundo elemento argumentativo. Mas o problema já foi detectado pela equipe de campanha dela. Durante sabatina no Estadão, ao responder ao jornalista Iuri Pitta, Marina veio com o ‘em primeiro lugar’ e interrompeu a fala imediatamente: “Não! Já me disseram que não posso mais falar assim”. Risos da plateia. “Eu tenho esse cacoete. Por ser professora, não consigo deixar de dizer ‘em primeiro lugar’”, a candidata ri.

Reconhecer o problema é o primeiro passo para evitá-lo no discurso político, defendem os especialistas. As ‘muletas’ podem encobrir clichês como uma trapaça nem sempre voluntária (ou não) da comunicação. O político pode usar o termo para ganhar tempo para pensar numa pergunta mais ‘espinhosa’ por parte do entrevistador. Para aqueles que já notaram a repetição em outros momentos, a estratégia funciona, uma vez que não consegue prestar atenção no conteúdo da fala e sim no cacoete (que parece chiclete na mente!).

Esse post está mais voltado ao mundo gramatical do que essencialmente político, certo? Errado. O discurso político é tão antigo, provavelmente, quanto a vida do ser humano. E pego como exemplo a Grécia antiga, onde o político era cidadão da ‘pólis’ (cidade, vida em sociedade) e que decidia tudo em diálogo na ‘agora’ (praça onde assembleias eram realizadas com a comunidade) através da persuasão. Por isso, o discurso político é baseado na retórica e na oratória. Sempre foi orientado para convencer o povo.

Na internet, é comum encontrar dicas de como fazer um discurso político eficaz! Porém, as repetições de improviso tornam a fala insuportável, de modo que, alguns segundos depois de pronunciadas, o público começa a contar quantas vezes o político mencionou aquele cacoete!

O escritor, jornalista, político, advogado, romancista e dramaturgo José de Alencar (1829-1877) dizia: “Todo discurso deve ser como o vestido das mulheres, não tão curto, que nos escandalizem, nem tão comprido, que nos entristeçam”. Vamos colaborar, candidatos.

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