Moqueca, jejum e dengue

Eder Brito

24 de fevereiro de 2016 | 14h35

Fiz uma moqueca pela primeira vez na vida, domingo passado. Ficou muito boa. Para quem estava acostumado a elaborar pratos cuja complexidade nunca ultrapassava o nível “macarrão-instantâneo-com-atum-e-lata” ou “ovo-frito-no-pão-amanhecido”, a sensação foi de vitória. Gloriosamente satisfeito, decidi compartilhar minha proeza com o resto do mundo. O problema foi o leite de coco.

Terminada a receita, lavei as embalagens, com a intenção de levar tudo ao ponto de reciclagem, logo ali, no quintal do prédio, na manhã posterior. Acabei esquecendo tudo por lá, durante dois dias, inclusive uma caixinha de leite de coco, com um pouco de água dentro. Ontem, ao me deitar, lembrei da bendita caixinha. E lembrei do Aedes, da dengue e da zika. Levantei correndo da cama e fui jogar a água, já com medo de que o maldito mosquito tivesse infestado a vizinhança. Senti culpa, me senti burro. Esbravejei em voz alta. Limpei tudo, levei o lixo aonde deveria ter levado antes e fui dormir. Acho que não tinha larva nenhuma ali, mas na hora só conseguia pensar nas crianças com microcefalia, nos postos de saúde lotados, nos pronunciamentos e entrevistas do ministrado da Sáude e na chinesa da OMS dizendo o que é preciso fazer.

É nesse tipo de ação e reação em que acredito. Pessoas que recebem informações e tomam atitudes, seja por consciência, por medo ou por susto. Mas são pessoas e suas atitudes que poderão livrar o Brasil dessa ridícula situação epidêmica em que nos encontramos. Eu realmente acredito nisso, mas Erick Marcus dos Reis, filiado ao PTB e eleito prefeito do município de Goiandira, em Goiás, não acredita. Ele acha que as pessoas precisam jejuar e pedir a Deus para que acabe com a dengue.

Foi por isso que, “no uso de suas atribuições legais”, ele decretou que 22 de fevereiro de 2016 como o Dia do Jejum Municipal. Segundo o texto do Decreto, os cidadãos de Goiandira devem utilizar o período “com o objetivo de clamar a Deus por livramento e misericórdia em virtude da epidemia de dengue” que assola o município. O segundo artigo do Decreto convoca “todos os líderes religiosos da comunidade a transmitirem (sic) aos seus fiéis os objetivos desse dia”. Nenhum artigo falo de ações, programas, projetos, eventos ou políticas que estão sendo desenvolvidos ou deveriam ocorrer para lidar com a situação.

O decreto poderia ser válido para mim, caso se aplicasse ao território paulistano e se a data escolhida fosse outra. Se eu fosse convocado ao jejum no dia da fatídica moqueca, jamais teria esquecido a caixinha de leite de coco com tanta água dentro. Não teria gerado um potencial foco e criadouro para o Aedes Aegypti. Faz bastante sentido. Não faz?

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