Mônica e o crack

Eder Brito

30 de maio de 2017 | 23h59

Já faz mais de três anos, mas eu ainda não sei o sobrenome da Mônica. Ela é a Mônica da rua, aquela que está sempre por ali. Ela não é da minha família, não trabalha comigo, mas faz parte da minha vida porque está viciada e porque o vício a levou para longe de tudo que um dia ela chamou de “vida normal”. E não foi exatamente na minha vida que ela entrou. É na vida dos meus pais que ela faz diferença. Começou com um toque na campainha lá de casa, em Diadema. Viram a moça maltrapilha e pensaram que era “apenas” mais alguém pedindo dinheiro ou comida, como acontece corriqueiramente ali na Rua Japurá. Era isso mesmo, um pedido meio apressado, pouco humilde porque estava desesperadamente faminto por qualquer coisa que pudesse chamar de refeição. E era o primeiro pedido de uma série que vem se estendendo por muitos anos.

Minha mãe, meio medrosa, hesitou no começo. Tinha medo porque as estórias de assaltos infelizmente são frequentes por ali. Mesmo assim, abriu o portão, entregou o prato de comida e a garrafa cheia de água para ajudar a comida a descer. Mônica agradeceu e continua voltando. A frequência aumentou muito por um tempo. Depois diminuiu. Durante algumas semanas, vinha também para o café da manhã, não apenas para o almoço. Às vezes também aparecia para o jantar. “Temos uma nova irmã”, brincou minha verdadeira irmã outro dia. O fato é que Mônica virou rotina. Cada vez que ela sumia, minha mãe compartilhava conosco. “Faz mais de uma semana que a Mônica não aparece”. Ficava preocupada e pensava no pior. “Não morri não, Ana”, diria ela depois, ansiosa por mais um pouco de comida.

Algumas pouquíssimas vezes, minhas visitas aos meus pais coincidiram com o período em que a Mônica aparecia para as refeições. Conversei com ela. Foram conversas estranhas. Meus pais já falavam tanto dela que a curiosidade em conhecer aquela história já tinha tomado conta de mim. Queria entender a vida daquela mulher. Queria saber mais. As respostas monossilábicas dela me decepcionaram e me fizeram sentir como se eu fosse um policial despreparado, interrogando uma suspeita com medo de ter o crime descoberto. Parecia ter muito medo de mim. Na segunda vez, consegui frases mais longas. Orgulhosa, falou de um filho que estava trabalhando. Mais tarde, soube pela minha mãe que aquele era o filho mais novo dela e que ele tinha arrumado um emprego no McDonalds. Ela estava feliz porque o filho era trabalhador e não tinha se envolvido com “coisa errada” como ela. Ia seguir um caminho diferente do tal do Richtofen, pensei, inevitavelmente.

Mônica vive perambulando por Diadema e sempre pode ser vista em algum lugar do Campanário ou do Taboão. Falei com a minha mãe hoje e ela me disse que a residência agora é um piscinão do bairro. Por um tempo, foi “casada’ com o Borracha, um outro morador em situação de rua que também estava viciado em crack. Meu pai sempre arrumava uns bicos pro Borracha quando podia. Recolher entulho, carregar terra para o jardim, ajudar na limpeza de algum local. Dava uns trocos e sabemos como aquele dinheiro era usado, mas o que podemos fazer? Agora já faz um tempo que o Borracha não aparece. Outro dia meu pai o encontrou cuidando de carros e com um celular na mão. Disse que mudou de vida.

Ela continua morando por aí, em mini-cracolândias que se erguem e desaparecem, de acordo com os empurrões do acaso. De vez em quando saem de uma praça e vão para outra. De vez em quando desaparecem. O fato é que eles existem. E quando pedem comida aos meus pais, eles recebem comida. Quando pedem água, ganham água. Sempre nos sentimos muito curiosos, mas nunca nos sentimos no direito de decidir nada por eles.

A essa altura, já ficou claro que esse não é um case de sucesso de alguém que se recuperou e se livrou do vício. Essa não é uma história bonita. Essa história nem acabou. E são histórias como essa que as Prefeituras e políticas públicas do país precisam enfrentar diariamente. Também não é uma tentativa de dizer que alguém é melhor do que alguém. Isso é apenas algo que vejo minha família vivendo há alguns anos e que nem todo mundo entendeu direito ainda. Fazem o que está ao alcance. De vez em quando é frustrante. De vez em quando é reconfortante. O tempo inteiro, só uma coisa é certa: estão lidando com humanos que consomem crack e tentam ser o melhor possível em meio a um monte de dúvidas.

É tudo difícil, tudo sem direção e sem clareza. Todo mundo junto, meio no escuro. Ninguém sabe o que fazer. E amanhã cedo, quando estivermos acordando, alguém, em algum governo, de alguma cidade pensará em mais uma solução para lidar com mais uma Cracolândia. Sim, elas são várias, em muitos lugares do país. Não é exclusividade da capital paulista. O crack já está tão disseminado que até o Governo Federal chegou a fazer um tal de “Crack: é possível vencer”. E cada solução, de cada governo, vai se esforçar para fazer parecer que esse é o melhor caminho. Mas no fundo ninguém sabe.

E todo mundo vai dormir sem saber o que fazer, mais uma vez. E enquanto dorme, minha mãe, às vezes, acorda de madrugada, com a sensação de que ouviu a Mônica chamando no portão. Ela se preocupa, de verdade, de coração, de um jeito que até preocupa com a gente. Quem mais acorda preocupado com todos os outros?

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