Mais uma pitada de família

Humberto Dantas

25 de agosto de 2014 | 23h20

Mais uma pitada de família

 

Algumas pessoas acessam esse espaço, leem um texto com crítica reflexiva sobre a cultura política brasileira utilizando como exemplo uma família de políticos petista e logo pensam: “lá vem o reaça falar mal do partido que gosto”. Outras, por outro lado, pensam: “é isso mesmo! Petista é tudo igual!”. Nada disso! Gosta? Ótimo! É da democracia. Não gosta? Também é. Mas é difícil dizer que algum partido é diferente quando o assunto é a cultura política brasileira. Assim, fiquem logo sabendo que não temos, escancaradamente nesse blog, nada contra nenhum dos 32 partidos políticos brasileiros enquanto organizações. Claro que temos críticas contra algumas ações de todos eles, mas se a lei permite que partidos existam, então que existam! Por sinal, pra deixarmos registrado: existem outros 100 tentando viabilidade jurídica para a disputa de eleição.

 

Mas o texto publicado segunda-feira passada e intitulado “Família, Família” não criticava partidos, mas sim o velho hábito brasileiro de louvar familiares e seus legados na vida pública. O exemplo era a família Tatto em São Paulo. No que um leitor logo perguntou: “se médicos se perpetuam na profissão, se advogados se perpetuam familiarmente na profissão, por que políticos não podem fazer o mesmo?” A primeira resposta seria: porque estamos falando da coisa pública. E isso envolve, obviamente, o Judiciário e o serviço público, onde linhagens inteiras lamentavelmente ocupam espaço quase eterno em concursos públicos e cargos comissionados que não parecem ser renovados. Por outro lado poderíamos pensar: deve ser mais fácil para o filho de um político herdar o legado do pai e ter sucesso nas urnas. De fato. Faz sentido, e em última instância a decisão, nesses casos, cabe ao eleitorado. Eduardo Campos, morto recentemente, fazia questão de louvar “os seus”, e agora parece que a herança vai marcar posição. O mesmo, nesse caso, ocorre em São Paulo com a família Covas. E com tantas outras. Mas a crítica não deixa de ser válida. E para afastar a ideia leviana de crítica a este ou àquele partido: se fomos ao PT, vamos ao DEM. E não falarei da família Magalhães da Bahia. Isso seria óbvio demais.

 

Em nosso exemplo, a família está no Norte do Brasil – e obviamente não está sozinha, mas vamos com ela. No Amapá, que tem os Capiberibe como sinais marcantes, encontramos a família Alcolumbre. De origem judaica, e presente faz mais de 130 anos no estado, recentemente se envolveu em discussão com o site Congresso em Foco, porque contestavam a informação de que seriam donos de cerca de uma dezena de concessões de rádio e TV. Entre as justificativas, que passava longe de negar a posse de alguns canais, o fato de que não possuíam o negócio porque estavam na política. Mas o contrário dificilmente alguém nega: será que a posse facilita a chegada aos cargos eletivos? Perceba: não se trata de uma afirmação, mas sim de pergunta. E nesse ano lá estão os Alcolumbre na eleição amapaense. O candidato ao Senado, derrotado no pleito para prefeito da capital em 2012, é o deputado federal David Samuel Alcolumbre Tobelem. Seu primeiro suplente é José Samuel Alcolumbre Tobelem. Pelo mesmo partido, e mirando a vaga do irmão na Câmara dos Deputados, Alberto Samuel Alcolumbre Tobelem. Esqueçamos o “Samuel Tobelem”, eles utilizam apenas “Alcolumbre”. O mesmo pode ser dito para o candidato a deputado estadual Isaac Alcolumbre, e esse carrega o “Neto”. Assim, ao que tudo indica de Norte a Sul desse país cultura é algo realmente marcante. Família é algo realmente forte! Demais!

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