Mais que um beijo

Humberto Dantas

21 de fevereiro de 2014 | 08h00

Todo mundo sabia o peso de um beijo gay numa novela da Rede Globo sobre a opinião pública brasileira. Infelizmente foi necessário um bom tempo dentro do século XXI para que o terceiro milênio realmente começasse na principal emissora de TV do país. E se é assim na ficção, imagina como deve ser na vida real? E na política nacional então?

 

Marta Suplicy (PT) sempre foi entusiasta da causa de defesa das questões associadas à sexualidade. Mas sua campanha de 2008, num gesto de desespero, chegou a supor que uma possível homossexualidade do então prefeito e adversário Gilberto Kassab (à época no DEM) poderia interferir no voto e na qualidade da representação política. A atitude foi criticada e o debate arrefeceu. Marta se desculpou. Assim, pouco importa a motivação sexual do ex-prefeito de São Paulo. Mas certamente a maior metrópole do país, que vive na vanguarda em uma série de aspectos, não inovou em matéria de políticos que convivem bem com sua homossexualidade – se é que eles existem por aqui. Esse título pertence a outra localidade, no interior do estado.

 

Aliança dourada na mão, cerca de dez anos de relacionamento estável à época da eleição e a declaração: “não fazia sentido esconder quem eu amo e respeito”. Perfeito. Ou melhor: prefeito. A afirmação veio durante a campanha de 2012 e partiu de Edgar de Souza, do PSDB de Lins. Até então o jovem sociólogo, pouco mais de 30 anos, e alguns mandatos na Câmara Municipal – onde debutou após as eleições de 2000 com 21 anos – não havia declarado essa característica. A ideia veio no pleito majoritário, onde afirmou que não podia enganar o eleitorado, deixando de ser transparente e mostrando quem ama de forma natural. Em sua coligação, algo que podemos associar à tolerância: “Lins merece muito mais”. E mereceu.

 

Os adversários pegaram no pé e buscaram desqualifica-lo em razão da questão gay. Deu certo? Pode até ter afastado alguns, mas o fato é que Edgar foi eleito com mais de 53% dos votos, adesão bastante expressiva num país que é considerado o mais homofóbico das Américas segundo ranking apontado pela BBC Brasil. De acordo com a Associação Brasileira GLT, em matério do G1, o caso de Edgar é único. Já na reportagem da agência internacional de notícias o destaque fica por conta de Benjamín Medrano Quezada, eleito em 2013 pelo PRI como prefeito de Fresnillo, no México. Ao longo da campanha rumores de seus adversários davam conta de seu envolvimento íntimo com crianças. Foi a gota d’água: assumiu a homossexualidade, ganhou com folga o pleito e mostrou que a despeito de o seu país ser o segundo colocado no mencionado ranking, na política um gay pode ser eleito. Resta saber agora quando as tradicionais novelas de nosso parceiro de continente mostrarão beijos gays. Na trama de “Los exitosos Pérez”, entre 2009 e 2010, a esperança esbarrou na justiça, que censurou a cena. Assim, certamente existem outras razões para sermos o primeiro na citada classificação, e eles o segundo no campo do preconceito. Em termos de prefeituras, aparentemente estamos empatados.

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