Luluquinha Papelaria & Carnes Ltda.

Eder Brito

13 de janeiro de 2016 | 17h09

Na Câmara Municipal de São Paulo, o vereador Senival Moura (PT-SP) compra 90 mil folhas de sulfite todos os meses. A quantidade já assusta, pois significa que ele utiliza em média, 4.100 folhas diariamente. São mais de 500 folhas por hora de trabalho, número digno de uma pequena gráfica. A compra, é claro, e infelizmente, é feita com dinheiro público, mensalmente no mesmo lugar, uma papelaria de Guianazes, cujo dono é Genival Petroceli, empresário da região que sempre apoiou Senival, publicamente. Todos esses dados estão em uma bela reportagem do repórter Leandro Machado, publicada no jornal Folha de S. Paulo no final de 2015.

Em Seropédica, no Rio de Janeiro, o ex-prefeito Darci dos Anjos Lopes também gastou bastante com uma papelaria. O problema é que os gastos na papelaria foram com frango e carne bovina. Mais de 130 mil reais foram utilizados para a compra de toneladas dos itens, adquiridos para a merenda escolar da cidade. A compra foi feita na Luluquinha Papelaria, Material de Limpeza e Bazar Ltda. A estranha compra já foi apontada como irregular pelo Tribunal de Contas do Rio de Janeiro e o ex-prefeito condenado a ressarcir o município. Segundo o mesmo Tribunal, todos os itens estavam superfaturados. Acho que papelarias não sabem mesmo precificar carne. Inevitável perguntar: será que era Friboi?

As estranhas compras públicas não são exclusividade na esfera municipal. Na Assembleia Legislativa do Amapá, em 2011, a deputada Sandra Ohana (PP) usou sua verba de gabinete para comprar acessórios de manicure e ração para cachorro. As aquisições atípicas só foram descobertas graças a um levantamento que faz parte de investigação do Ministério Público daquele Estado. O mesmo processo verificou irregularidades no ressarcimento de despesas em mais de um gabinete.

Enquanto isso, milhões de servidores de “baixo escalão” sofrem diariamente em Prefeituras, Câmaras Municipais e equipamentos públicos, sem dinheiro para comprar os itens mais básicos. A falta desses itens normalmente termina em serviço público mal prestado ou não prestado, o que é pior. Essa relação faz aumentar a percepção negativa em relação ao Governo, em relação aos partidos, em relação à classe política. Um ciclo triste e conhecido.

Lembrei da minha tenra juventude, fazendo vaquinha entre os colegas na unidade básica de saúde e pedindo “patrocínio” à padaria do bairro para imprimir um banner na campanha de combate à dengue da região em que trabalhava. Lembrei de como era difícil conseguir verba para comprar novos computadores em uma outra Secretaria Municipal por onde passei, ao mesmo tempo em que os armários se abarrotavam mensalmente com outros tipos de material de escritório que jamais eram utilizados e só interessavam a quem vendia. Lembrei de como era triste coordenar uma equipe de fotógrafos que, frustrada, precisava fazer milagres para registrar eventos e a memória da cidade com máquinas que já ultrapassavam uma década de uso. Lembrei também de como é difícil ser servidor, estar no meio do olho do furacão, não entender muito bem como essas coisas surgem “do nada” e morrer de medo do assédio moral que te impede de tomar uma atitude concreta.

Aos colegas servidores públicos que sofrem diariamente com esse tipo de aperto na garganta, toda minha empatia e carinho. Aos criminosos que abusam de nossas instituições diuturnamente, todo o meu nojo e desprezo.

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