Laxante verbal

Humberto Dantas

10 de março de 2014 | 08h12

Não tente entender apenas assistindo ao vídeo. O quebra-cabeças é complexo, novas peças têm aparecido nos últimos dias e precisamos apelar para as origens locais. Quando começou a circular no YouTube um post de alguns deputados gaúchos contrários à demarcação de terras indígenas, uma das falas se destacou. O congressista do Partido Progressista, Luiz Carlos Heinze, dirige seu discurso contra o ministro Gilberto Carvalho – ausente no evento. O que poderia ser apenas um posicionamento contrário à determinada ideia, ganhou ares de intolerância e preconceito. O deputado brada, com microfone na mão – o maldito microfone e os aplausos encorajadores dos aduladores de plantão: “é ali que estão aninhados quilombolas, índios, gays, lésbicas (…) tudo o que não presta está ali aninhado e tem o comando do governo”. Precisa ser assim? Há mesmo necessidade? O que os homossexuais, por exemplo, têm a ver com a demarcação de terras? O que existe de relação entre as pessoas que “não prestam” e as características apontadas pelo deputado? Curioso que a despeito do ódio que nutre por certos tipos de pessoas, e das críticas ao governo federal, em 76% de suas votações Heinze atendeu aos interesses do Palácio do Planalto de acordo com nosso Basômetro. E o Palácio do Planalto? Teria atendido o deputado numa lógica governista? Provavelmente sim, mas…

 

Mas nada do que dissemos acima nos permite entender de onde vem o ódio profanado em público contra determinados tipos de pessoas. Vamos tentar elucidar os fatos com uma hipótese, no mínimo, curiosa. Em 29 de novembro de 2013 o parlamentar estava em uma audiência pública da Comissão de Agricultura da Câmara dos Deputados. As imagens foram captadas nesse evento. Provavelmente estava defendendo seus interesses de dono de terra. Em 2010, sua declaração de bens ao TSE mostrava um patrimônio de quase dois milhões de reais no qual se destaca o que costumamos chamar de terra nua. A postura é legítima? Sim. Mas precisa destilar o preconceito? Não. Óbvio! E o motivo? Vamos adiante. O evento ocorria no norte de seu estado: o Rio Grande do Sul, lá na fronteira com Santa Catarina. Mais especificamente em Vicente Dutra. E o problema talvez esteja aí. A cidade, de acordo com o IBGE, originou-se “da descoberta de uma fonte de água com poder”. Poder? Calma. Vamos completar a frase: com poder laxativo. Entendeu? Desacostumado com as propriedades milagrosas da fonte, o deputado nascido em Candelária deve ter tomado muita água naquele fatídico dia. Ao subir no palanque para falar foi vítima. Ou seja: deu nisso. Se não saiu sob a forma física, só poderia ter saído sob o formato verbal. A desculpa pode até parecer esfarrapada, mas seria bastante razoável para apagar qualquer tentativa de uma explicação capaz de carregar ainda mais preconceito. Que m…