João e Maria

Eder Brito

11 Novembro 2015 | 18h19

João chegou à minha casa no meio da tarde de sábado, duas horas depois do prometido. Pediu desculpas pelo atraso. Tudo culpa da operadora de TV a cabo, segundo ele. Não fiquei bravo. Era um cara simpático, falante e estava ali para finalmente resolver o meu problema. Estou mudando de apartamento e nesse período tudo fica caótico. Sair de um apartamento grande para um pequeno significa muita bagunça e reinstalação de serviços básicos, incluindo gás, televisão e a gloriosa conexão à internet e TV, essas duas últimas soluções trazidas junto com a visita de João. Fiquei até sem conseguir escrever e publicar no blog por um período. Mas, ironicamente, foi essa mesma dificuldade que me fez conhecer a história da família de João.

 

O técnico de instalação já chegou batendo o olho nos meus livros, acomodados bem na entrada, na estante da sala. Olhou uns três títulos enquanto cortava um fio e me lançou a pergunta: “Gosta de política, é?”. “Leões gostam de carne fresca?”, pensei, com vergonha de comentar em voz alta. Dali em diante, ele descobriu quem eu era, com o que trabalho, porque “gosto de política” mas, acima de tudo, tive a possibilidade de ouvir a história de Dona Maria, mãe do João.

 

Com 70 anos de idade, Dona Maria é uma líder comunitária na Freguesia do Ó, zona norte de São Paulo. Há trinta anos é referência no bairro, ajudando quem mais precisa. Coleta e distribui alimentos para famílias pobres, entrega leite para a criançada “desde a época do Maluf”, ajuda a resolver problemas de todo mundo que a procura. Tudo voluntariamente, sem ganhar um tostão, segundo o relato orgulhoso do filho. “E se tiver algum móvel antigo ou roupa usada que você não queira mais, é só falar comigo e eu venho retirar. Minha mãe junta tudo e faz chegar na mão de quem precisa”, me disse João durante a conversa, lembrando que eu estava em pleno processo de mudança e num aparente processo obrigatório de desapego aos móveis apertados num canto.

 

Entre um cabo conectado e outro, João também me diz que a mãe, é claro, sempre é muito procurada por políticos. Toda hora, mas principalmente quando chegam as campanhas eleitorais. Cita dois nomes especificamente: um vereador e um deputado estadual. Diz que o vereador é um cara legal, que faz tudo o que a mãe dele pede. Em troca, ela já o ajudou a garantir três mandatos na Câmara Municipal de São Paulo, mobilizando a comunidade e “garantindo que todo mundo que ela auxilia também vote nele”. “A gente monta um esquema no dia das eleições. Fica fazendo boca de urna, sabe como é, né? Dizem que é proibido, mas sempre tem. A gente fica lá, de plantão mesmo, o dia inteiro, para garantir que os conhecidos foram até a escola e puderam ouvir uma dica de última hora.  A maioria segue a nossa indicação, porque só decide na hora mesmo. Eu ajudo. É minha mãe, né?”.

 

O vereador é “tão legal” que até já ajudou João a se livrar de uma enrascada. Andando de moto sem capacete, acabou se envolvendo em um acidente feio, que quase matou sua própria esposa. Desesperado na delegacia, não teve dúvidas: ligou para a mãe, que acionou o vereador. Uma conversa de dez minutos do parlamentar com o delegado e o ocorrido jamais foi registrado.

 

Do Deputado, João guarda um pouco de rancor. Em uma época ruim, quando estava desempregado, foi falar com a mãe, para ver se ela conseguia algo para o filho. “Sabe como é, né? Uma mão lava a outra”. Ficou sabendo que existia uma cota que os deputados tinham para gastar por mês e que poderia viabilizar uma grana trabalhando como motorista para o gabinete. O deputado enrolou e nunca garantiu nada fixo. João não conseguiu tirar nem 600 reais fazendo bicos para o mandato e desistiu. “Como é que pode, né? Um cara que minha mãe ajudou tanto, virou deputado e esquece da gente quando a gente mais precisa… Eu tava desempregado, mas também não tava morto de fome, né? 600 reais!?”.

 

João e Maria são nomes fictícios, substitutos em respeito ao técnico que não sabe que eu estou compartilhando esse relato. A história, por sua vez, é 100% real, nada fictícia. O vereador e deputado não precisam ter seus nomes citados. Não faria diferença. Existem muitas histórias idênticas.