Intervenção militar municipal

Eder Brito

19 de agosto de 2015 | 23h12

A Prefeitura de São Paulo comunicou na semana passada a existência do Ruas de Memória, programa que vai alterar o nome de ruas, praças, viadutos, pontes e avenidas que têm nomes de personagens vinculados ao período de ditadura militar no Brasil. O grande símbolo é o Elevado Costa e Silva que passará a ser chamado oficialmente de Minhocão. Outros municípios brasileiros já fizeram coisas parecidas, alterando nomes de equipamentos públicos que continham “homenagens” a um dos períodos mais complexos e negativos da recente história política nacional.

Mas e quando o nome do município carrega a estranha homenagem? O Costa e Silva do Minhocão não aparece em nenhuma de nossas 5570 cidades, mas existem dois municípios chamados Presidente Castelo Branco: um no Paraná e outro em Santa Catarina. O paranaense se chamou Iroí por 10 anos, mas teve seu nome gentilmente e coincidentemente alterado em pleno dezembro de 1964. O município ainda faz divisa com Nova Esperança. Quem sabe…

O Presidente Castelo Branco catarinense também foi fruto de um nome alterado em plena ditadura. Por trinta anos em busca de emancipação, o pequeno território sempre foi conhecido como Dois Irmãos. Conseguiu em fevereiro de 1964, dois meses antes do Golpe que derrubou João Goulart, mas um ano depois ficava pronta a Lei Estadual que alterava o nome para Presidente Castelo Branco, vigente até agora.

Emílio Garrastazu Médici é o campeão de homenagens em forma de cidades. Podemos listar Medicilândia, no Pará, fundada e batizada em 12 de maio de 1989, pós-Constituinte, mas ainda como festejo do acesso proporcionado ao local pela Rodovia Transamazônica, obra “iniciada por Médici”. Outros dois municípios chamam-se Presidente Médici: um no Maranhão, fundado em 1994 (!) e outro em Rondônia, fundado em 1981. Presidente Figueiredo, no Amazonas, é a homenagem em forma de município ao João, último “presidente” do período de ditadura. A cidade foi fundada em dezembro de 1985, seis meses depois do início do mandato de José Sarney.

Por vários motivos, detesto comparar o Brasil com nações estrangeiras, mas nesse caso não evitarei. É porque acho muito difícil andar pela Alemanha e encontrar alguma cidade chamada Adolf Hitler. Percorra o mapa da Itália e tente encontrar algum Mussolini. Deve ser impossível encontrar algum município Milosevic na Sérvia ou na região da antiga Iugoslávia. Tenho a impressão de que nações mais antigas já aprenderam a registrar sua memória de um jeito justo, enaltecendo o que realmente foi grandioso e positivo em sua história e evolução.

Por aqui, ainda é possível encontrar estranhas homenagens, instituídas e negativamente encravadas no nosso dia-a-dia. E não permanecem apenas como logradouros ou denominação de municípios, mas também como discurso, postura e estranhos desejos de retrocesso. Teimam em sumir, não param de enaltecer um dos momentos mais tristes de nossa história e ainda insistem em se confundir com evolução da democracia. É preciso intervir.

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