Interagindo com o jornal de domingo – o ecológico patriota e sua coerência

Humberto Dantas

30 de outubro de 2017 | 07h06

Faz dois domingos me senti desafiado pela bela matéria de Marianna Holanda sob o título “Bolsonaro faz sigla ecológica abandonar causa ambiental”. Qualquer pessoa sabe que o PEN nunca teve nada de ecológico, sua sigla é ocasional, e mudar para Patriota é tão conveniente quanto se chamar Arbusto, Floresta, Matagal, Poluente, Motosserra ou Pesticida. Tão frágil quanto transformar o possível novo filiado em presidente de honra e dar liberdade para escolhas, assim como ofertar a ele poderes de veto em alianças e possibilidade de se autoproclamar candidato. Tudo isso seria uma forma de atrair o valioso pré-candidato, almejando a Presidência e, sobretudo, uma elevação expressiva da bancada de deputados federais que seja capaz de gerar mais recursos num “círculo virtuoso” capaz de alavancar o PEN, ou o Patriota, a níveis de grande legenda…

Pois bem, a estratégia está tão centrada em Bolsonaro que até um artigo anti-esquerda foi colocado no novo estatuto. A matéria de Marianna o reproduz da seguinte maneira: “PT, PSOL, PC do B, PSTU, PPL, PCO, PCB e quaisquer outros partidos que apoiem regimes autoritários”. Estranho imaginar qual a interpretação que a legenda oferta ao orgulho que Bolsonaro tem da ditadura vivida no Brasil entre 1964 e 1985, mas vamos em frente. O confronto não é esse.

O PEN disputou sua primeira eleição em 2014, ou seja, até hoje só jogou duas partidas. Nos estados, quando o assunto são alianças para governador, das 24 unidades em que disputou o governo estadual, dando apoio a outros partidos, os ecológicos se aliaram com aquilo que hoje parecem refutar em nove deles: AL, PE, RN, MA, AC, RR, DF, MT e MS. O PPL aparece em sete, o PT em quatro, e o PC do B em três. Como conciliar essa diversidade?

Nos municípios, ao todo, de acordo com os instáveis bancos de dados de candidaturas do TSE – que também podem conter inconsistências para os acordos estaduais –, o PEN apareceu em 83 localidades com postulantes ao cargo de prefeito de forma isolada, ou seja, sem coligação. E em outras 1.764 cidades com candidatos próprios apoiados, ou apoiando competidores de outras legendas no que chamamos de coligações para as disputas majoritárias. O que teria sido do PEN em seus acordos municipais com as legendas que promete a Bolsonaro que não se aliará?

PCB, PCO e PSTU não se encontraram com os “ecológicos patrióticos” em lugar algum. E nesse caso, ao que tudo indica, menos por vontade do camaleão direitista e mais porque tais partidos de esquerda raramente se coligam. Assim, restaria verificar o nível do comportamento do PEN com legendas mais afeitas a esse tipo de acordo. E aqui fica ainda mais claro o motivo das queixas do deputado Junior Marreca (MA) contra a tentativa de engessar a legenda para receber o líder combatente/simpatizante dos “regimes autoritários”. Segundo o parlamentar maranhense, em matéria de aliança, “cada eleição é uma eleição”, se referindo queixosamente à impossibilidade de acordo com a “extrema esquerda”. Pois é: o PEN se aliou ao PT em 500 cidades em 2016, ao PC do B em 423, ao PPL em 154 e ao PSOL em 18 municípios. Entre os grandes partidos brasileiros mais alinhados ao seu perfil ideológico, a legenda cujo presidente afirma ser de direita esteve com o PSD em 655 chapas (seu maior parceiro), o DEM em 625, o PP em 572, o PR em 579 e o PTB em 547. A média de alianças com os grandes da direita é de 596 cidades, enquanto com os maiores de esquerda (PPS, PSB, PDT e PT) é de 551, ou seja, no seu “universo ideológico claro” o volume de alianças é apenas 8% maior que a média daquilo que deseja refutar.

Isso mostra que efetivamente Marreca tem razão: cada eleição é uma eleição, e pelo visto o PEN tem tudo pra se curvar ao que as pesquisas mostram em relação a Bolsonaro e todos os benefícios partidários que o Patriota federal lhe pode trazer. Se vai cumprir tudo isso são outros 500, mas definitivamente trata-se de um acordo que em nada dialoga com a curto história do partido.

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