Hipocrisia Real

Eder Brito

05 de agosto de 2015 | 21h50

Uma das paradas obrigatórias em uma visita à Londres é o Palácio de Buckingham. Tinha ouvido em algum lugar que a bandeira hasteada no alto do monumento significava que a Rainha Elizabeth II estava por lá. Dito e feito, fui conferir pessoalmente: ao chegar ao local, a bandeira estava lá, tremulando, imponente. Fiquei bobo imaginando Elizabeth passeando pelos milhares de corredores e pensando no monte de gente prostrada em frente ao seu Palácio.

Fui me juntar aos milhares de turistas (muitos brasileiros, “apesar da crise”, inclusive) que estavam em frente ao Palácio tirando fotos, estranhamente se divertindo com os famosos guardas britânicos e admirando os belos jardins e monumentos que circundam a famosa construção. Mas comecei a questionar o que estávamos fazendo ali (os turistas e eu). Não é um museu, não há nada acontecendo ali. Não há show nenhum (eu não fui no famoso horário da troca da guarda). Não tem “nada para ver”. Mesmo assim, milhares de pessoas se espremem para tirar fotos e registrar a presença ali. É como se aquele espaço fosse meio encantado.

Reis, rainhas, princesas e príncipes ainda fazem parte do nosso imaginário popular de um jeito muito peculiar e é isso que a família da Rainha Elizabeth II representa. É uma marca poderosa, uma das mais valiosas do país. Em 2015, uma Família como essa tem status de celebridade e está cercada de todo o encantamento que esse tipo de relação produz com o público em geral. Em 2011, uma consultoria britânica chamada Brand Finance – especialista em gestão e avaliação de marcas – avaliou quanto vale a “marca” Família Real com sua atuação, eventos, regalias, palácios… A tal marca vale mais de 44,5 bilhões de Libras, superando grandes marcas locais.

O contribuinte britânico gasta muito para “manter” sua Família Real. E mesmo assim, o sentimento é de orgulho. Orgulham-se de ter transformado a tradição em atração turística que gera bilhões anuais de Libras para os cofres públicos e privados de toda a Inglaterra. Entenderam a função. Assimilaram, apoiam, se orgulham e não se importam (de acordo com as pesquisas de opinião) em contribuir para isso.

 

Por aqui, ainda estamos tentando entender a importância e a utilidade dos nossos representantes. Por aqui, não queremos participar da rotina deles, não queremos investir neles, tampouco enxergar qualquer tipo de potencial turístico em nossos representantes. É fato que ainda temos políticos que se comportam como se a Monarquia estivesse em voga. Mas são todos ocupantes de cargos eletivos e não detentores do poder porque Deus escolheu. E mesmo tendo participado do processo de escolha, os “súditos” não conseguem se orgulhar de nada, quanto mais encontrar justificativas para os investimentos.

Em Santo Antônio da Platina, no norte do Paraná, aprovaram há 20 dias a redução dos salários dos vereadores e dos prefeitos. Os representantes do Legislativo passarão a receber um salário mínimo a partir de 2017. Agora os vizinhos de Jacarezinho estão tentando fazer o mesmo. Há quem defenda a redução. Não sei se são os mesmos que trabalhariam gratuitamente como vereadores.

Quase em uníssono, gritamos que nossos representantes ganham muito para fazer pouco ou quase nada. Nos equivocamos. Existem ótimos vereadores. Existem grandes prefeitos. E eles não são todos iguais. Queremos que os vereadores trabalhem de graça, mas não queremos substituí-los em suas funções essenciais, nem entendemos o que eles fazem. Vereadores e Prefeitos estão sendo pagos para fazer o que muita gente não tem a menor vontade e nem coragem de fazer. Precisamos apenas escolher melhor. E precisamos desesperadamente estudar em conjunto, para compreender qual é o papel deles. Nossa hipocrisia também é real. E se não seguirmos no caminho da educação política, ela não vai sumir de repente.

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