GrafiTUR – turismo pela arte urbana

Humberto Dantas

06 de fevereiro de 2017 | 07h36

Em meio às últimas polêmicas de João Dória em sua investida contras grafites em alguns pontos da cidade de São Paulo, fomos conferir reportagens do passado sobre cidades consideradas capitais desse tipo de arte urbana, até certo ponto polêmica na visão de alguns cidadãos mais conservadores.

Em algumas delas São Paulo é vista como berço nacional ou exemplo mundial. Curioso que faz pouco mais de um ano o Brasil Post replicava postagem do Huffington Post, agregador de blogues americanos, falando das 17 cidades “não óbvias” que “você deve visitar para ver arte de rua”. Ali estavam lugares incríveis espalhados pelo mundo. A lista é bem atraente para quem gosta de viajar, e fiquei sentido de conhecer apenas um desses lugares: Grottaglie (Itália), Boras (Suécia), Besançon (França), a conhecida Valparaíso (Chile), Lodz (Polônia), Santurce (Porto Rico), Penang (Malásia), Stavanger (Noruega), Richmond (Estados Unidos), Río San Juan (República Dominicana), Shahpur Jat (Índia), Honolulu (Havaí), Reykjavík (Islândia), Gdynia (Polônia), Cidade do Panamá (Panamá), Djerba (Tunísia) e Kampong Glam (Cingapura).

Entre as obviedades do texto inicial estavam Londres, Berlim, Paris e Nova York. Ademais, acrescentava-se ainda Cidade do México, Praga e Montreal. Em matéria de 2014 tratando de locais consagrados para esse tipo de arte, do mesmo Huffington Post, estavam também: Melbourne, Cidade do Cabo, Moscou, Lisboa, Los Angeles, Bogotá, Dublin, Santiago, Taipei, Istambul, Bristol, Buenos Aires, Filadélfia, Bancoc, e Rio de Janeiro. E para fechar, as nada óbvias: Gdansk (Polônia), Quintanar de la Ordem (Espanha) e Bethlehem (Palestina). Aqui fiquei mais confortável, pois vivo em São Paulo, e conheço o Rio de Janeiro, Londres, Paris, Berlim, Lisboa, Bogotá, Santiago e Buenos Aires. Mas falta muito, e quem sabe não seria bacana fundar a GrafiTUR? Empresa especializada em arte de rua.

Fosse assim, se a empresa estivesse em plena atividade e com pacotes fechados para viajantes de todo o mundo, seria importante cancelar roteiros, rever painéis ou pedir desculpas para os clientes que estivesse de olho na avenida 23 de Maio. Foi por lá que o “cinza prefeitura” se fez poderoso pra cima dos belíssimos murais da cidade. Para alguns, a justificativa é simples e óbvia: eles estavam emporcalhados por pichações criminosas. Aqui a polêmica se adensa: não era razoável chamar os artistas originais e buscar uma solução conjunta? O orgulho de terminar uma obra numa cidade como São Paulo deve ser inversamente proporcional à dor de ver um mural apagado sem qualquer aviso antecipado. A medida gerou discussões, e até o secretário de Cultura se mostrou insatisfeito com a falta de vida na avenida. Agora a Prefeitura vem dizer que terá uma regra ou algo parecido para o grafite. Isso não é novidade. O Rio de Janeiro criou um código no governo passado, o que desagrada alguns e acalma outros.

Destaquemos que em 1998 uma lei federal descriminalizou a atividade do grafite. Lá está escrito, com inclusão de 2011: “não constitui crime a prática de grafite realizada com o objetivo de valorizar o patrimônio público ou privado mediante manifestação artística, desde que consentida pelo proprietário e, quando couber, pelo locatário ou arrendatário do bem privado e, no caso de bem público, com a autorização do órgão competente e a observância das posturas municipais e das normas editadas pelos órgãos governamentais responsáveis pela preservação e conservação do patrimônio histórico e artístico nacional”. Se a lei prega dessa forma, e polemicamente federaliza algo que as cidades poderiam regular aos seus modos, não seria razoável que também punisse o administrador que apagasse algo que foi considerado, segundo a LEI, em algum instante, uma “manifestação artística” autorizada pelo órgão competente? Autorizar num instante e desautorizar no seguinte, quando o assunto é arte, causa uma profunda polêmica com a qual o prefeito não precisava ter se abraço. Que a GrafiTUR estabeleça novo roteiro rapidamente em São Paulo, antes que tudo vire um mar cinza. Ou que espere as determinações de onde serão pintados novos murais. Até lá: aguardemos o Carnaval e nos deleitemos com a marchinha feita em homenagem ao cinza.

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