Golpe ou falta de articulação? A história se repete e encrespa geral

Humberto Dantas

28 Agosto 2017 | 07h20

Quando eu era criança ouvia muito o termo “encrespou” para dizer que alguma coisa tinha piorado. Sem entender o que isso significava, devo tê-lo usado algumas vezes. Com o passar do tempo tendo a acreditar que isso tenha alguma relação com o fato de as pessoas dizerem, preconceituosamente, que cabelo crespo é “cabelo ruim”, e se algo “encrespa” está associado ao fato de que piora. Parei de usar o termo. Não faz sentido algum dizer que cabelo bom ou ruim tenha associação com o fato de ser liso ou crespo. Isso é bizarro.

A despeito dessa reflexão capilar, em Sorocaba a coisa encrespou de vez porque o ex-futuro-atual-prefeito não alisa pra ninguém. Estou usando o termo que condenei no primeiro parágrafo por uma razão simples: por lá governa/governava José Caldini CRESPO, do DEM, que na década de 90 era deputado estadual. Lembro-me de seu nome nos autofalantes da Assembleia Legislativa, quando trabalhei por lá. Foi meu primeiro emprego!

Crespo tentou ser prefeito de Sorocaba cinco vezes, teve como adversários históricos muitos de seus apoiadores em 2016, em algo que se explica pela “dinâmica da política”. Crespo, no entanto, caiu numa “armadilha” muito parecida com aquela que vitimou gente distante dele em termos supostamente ideológicos. E nesse instante, certamente, muita gente que comemorou o impeachment de Dilma Rousseff, por exemplo, deve estar dizendo que em Sorocaba ocorreu um golpe. E esse golpe teria sido dado por uma mulher, sua vice!

Pois bem: Crespo foi cassado porque aparentemente a vice-prefeita, uma delegada reconhecida pelo trabalho emblemático que faz associado aos direitos da mulher, teria recebido uma denúncia de que uma das assessoras do prefeito tinha um diploma falsificado de ensino médio, de entidade fluminense envolvida em fraudes, que a impossibilitaria de ter cursado o ensino superior. Tudo isso seria facilmente resolvido em termos políticos, é óbvio, se Crespo não tivesse afrontado a vice, a proibido de entrar na prefeitura, a ofendido, a humilhado e a “condenado” a ficar longe da administração. Mas nada disso intimidou a corajosa delegada, que por razões óbvias conquistou o direito de voltar ao seu gabinete, e lá encontrou um servidor mandado pelo prefeito que passou a dividir sua sala e vigiá-la. O clima azedou de vez quando Crespo passou a ser visto por parcelas expressivas dos servidores e dos legisladores como um sujeito truculento em seus discursos e atitudes. O que se fala dele não é nada diferente, em termos comportamentais, do que se falava da ex-presidente Dilma.

Assim, não tardou para que tudo isso virasse inquérito na Câmara, se tornasse CPI e ocorresse votação que durou 10 horas para cassá-lo por quebra de decoro e prevaricação. E ele foi afastado na última semana: por diferença de UM voto, mas foi. Sendo que aqui está a brecha que pode leva-lo, mesmo que temporariamente, de volta ao poder. Seguindo os passos de todo Executivo que se vê ameaçado por aquilo que alguns pesquisadores lunáticos chamam de um “frágil Legislativo”, exonerou um secretário vereador para que esse voltasse à Câmara e lhe desse o voto salvador. O problema é que esse servidor/legislador havia sido procurador da prefeitura nos depoimentos do prefeito no caso, o que também seria contornável, mas serviu de razão para dizer que ele não poderia participar do julgamento! A leitura da regra aqui é bem questionável, mas Crespo estava encrespado com os servidores e com parte expressiva do parlamento. Caiu. Cabe recurso? Claro que sim, e vão tentar levar esse vereador ao seu voto. Mas nem o único edil do seu próprio DEM votou com ele – por sinal, aqui conta-se que Crespo teria cortado a participação desse vereador que é o presidente da Câmara num evento festivo. Ou seja: pediu pra se dar mal!

Legislativo fraco? Mulher frágil? Nada disso. A aguerrida vice, Dra. Jaqueline Coutinho (PTB) tomou posse sob os aplausos dos servidores no Paço Municipal. Crespo pode até voltar, mas sem sustentação será alvo fácil do parlamento, ou pagará preço ainda mais alto para governar. Definitivamente a coisa pro seu lado encrespou, e a pergunta que fica é: golpe? Sua defesa alega, segundo matéria do Estadão, que o processo foi um “espetáculo de ilegalidades praticadas pelos vereadores da oposição (que) envergonha o meio jurídico e só pode ser rotulado como vergonha”. Nada diferente do que o PT alega por Dilma. Mas aqui ficou claro: por mais absurdos que possam ser processos dessa natureza, por mais diferenças que existam entre o que houve no plano nacional e na realidade sorocabana, o Legislativo é forte demais, e a articulação política, ou total ausência dela, faz vítimas a despeito do partido.