Geni e o zepelim no agreste

Humberto Dantas

02 de fevereiro de 2015 | 07h25

Existe uma fase da infância, e não me cobre precisão nessa afirmação, em que tendemos a nos encantar mais com o que existe de errado. Foi por isso que aquele tio que dizia que “escovar os dentes era desnecessário” passou a ser o tio mais legal. Foi por isso que a tia que ria alto e falava palavrão era a mais divertida. Agora imagine minha alegria quando ouvi pela primeira vez a música “Geni e o Zepelim” de Chico Buarque. Um amigo tirou o vinil do plástico como se estivesse desvendando um segredo. Botou pra tocar, e a letra em si eu pouco entendi. Mas a passagem em que o povo “joga bosta na Geni” soou genial. Coitada da Geni. Era maldita porque dava “pra qualquer um”! Maldita Geni! Pronto, se até a música podia falar palavrão, e era cantada por um artista que minha mãe admirava, a coisa estava ficando boa. E passei a cantarolar isso em casa, para o desgosto dela.

O tempo passou, entendi a música, li até trabalhos científicos sobre ela. E descobri que não existe essa história de jogar pedra ou bosta em alguém, bem como a vida sexual de cada um não é problema da coletividade. O problema é que nem todo mundo está disposto a se desapegar de tais preconceitos e atitudes intolerantes. O divórcio, por exemplo. Até o Papa tem dado sinais claros de que os casamentos podem acabar, e quem somos nós pra recriminar? Calma. As coisas não são tão simples assim.

Terminar relacionamentos duradouros pode gerar problemas profundos. E foi o que ocorreu em Fagundes, no interior da Paraíba. Município com pouco mais de 11 mil habitantes na Grande Campina Grande – ficou estranho, mas é isso mesmo. Por lá, no dia 23 de dezembro de 2014, houve evento na Câmara de Vereadores em homenagem a figuras ilustres locais. Sob a presidência do vereador eleito pelo PR Severino Veiga de Freitas, o Tão Veiga (não confunda com Tom Veiga, intérprete do Louro José) o evento ocorria normalmente, segundo informações de Adelk Souza, no Fagundes Agora. Mas num país que canta “joga bosta na Geni”, por mais que seja absurdo conceber tal cena, lá estava a ex-mulher do presidente. No mesmo recinto que a atual mulher. Pronto! Pense na cena: tranquilamente, após desembrulhar um misterioso pacote o ato bizarro se consumou, e o passado despejou uma mistura de fezes e urina no presente. Permita-me melhores explicações: a ex-mulher de Tão “jogou bosta” na atual companheira. Que me desculpem os termos pouco adequados, mas foi isso o que aconteceu. A confusão não foi pequena, e a terrorista fecal deixou o local caminhando normalmente. Habilmente o presidente retomou os trabalhos, mas prometeu tomar as medidas cabíveis na justiça.

Pra complicar mais a conjuntura, durante as festas natalinas a cidade passou a se preocupar com o evento de posse do novo presidente da Câmara que ocorreria no dia primeiro de janeiro. Isso porque o substituto de Tão também é divorciado e já possui nova parceira. Ademais, o histórico da cidade é complexo. Recentemente um ex-prefeito teve a casa invadida e o carro danificado pela companheira. Ao que tudo indica, maldita não é a Geni, mas a tal ciumeira que se dissemina pelo local.

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