Gatos, Jacarézinhos e Fucinhos

Eder Brito

22 de junho de 2016 | 19h38

Uma das versões para o nome de Jacarézinho, município do norte paranaense, envolve o nome de um pássaro de peito amarelo, encontrado em abundância na região. Hoje a cidade é famosa graças a um grupo de mamíferos: os Gatos Pingados.

O movimento surgiu em 2015 e já foi assunto no blog, tratado tanto pelo Humberto quanto pela Camila. Após um movimento da Câmara Municipal para aumentar de nove para 13 vereadores, um grupo da sociedade civil jacarezinhense decidiu se unir e protestar contra a mudança. Nas primeiras tentativas de protesto, foram ironizados por um vereador que os acusava de serem apenas um “bando de gatos pingados”, sem representatividade. A provocação deu força e ajudou a formar o Observatório Social Todo Poder Emana do Povo, um movimento apartidário gerado a partir da vontade de combater medidas da Câmara Municipal naquele momento, mas que hoje se esforça em várias frentes, inclusive para propor projetos de iniciativa popular.

Os “gatos pingados” assumiram a identidade aparentemente depreciativa sugerida pelo vereador. Não só compareceram às sessões como ajudaram a alterar o rumo de pautas, votações e aprovações no legislativo municipal. Assumiram também… o miado. Acompanhar a presença do grupo nas sessões da Câmara é garantia de ouvir um bando de adultos miando feito gatos, em tom provocativo contra o mandato que os acusou. Conseguiram barrar o aumento do número de vagas de vereadores. Pressionaram e conseguiram aprovar também a diminuição do salário dos vereadores. Voltaram a ser destaque na imprensa essa semana, quando protestaram contra a tentativa dos vereadores de revogarem a diminuição.

Todo o movimento em Jacarezinho culmina em várias perguntas e duas lembranças. Explico primeiro as lembranças. A primeira é a campanha presidencial de 2014 no Brasil, quando o candidato Eduardo Jorge sugeria acabar com o salário dos vereadores no país. Preocupado com o “desprestígio da democracia” e esperando “tornar o município em foco da vida política administrativa”, o candidato sugeria tornar a função de vereança em uma atribuição voluntária. A segunda lembrança vem da Alemanha, um exemplo de federação em que a função de vereador também é uma função voluntária.

Agora compartilho as perguntas. Como seria um país em que grupos como os Gatos Pingados existissem em mais municípios de pequeno e médio porte (Jacarézinho tem 40 mil habitantes)? Por que precisaríamos de vereadores sendo pagos em municípios com menos de 50 mil habitantes, se esses grupos, voluntariamente mobilizados e sem receber remuneração por sua atuação política tivessem suas decisões oficialmente encaminhadas por uma nova lógica processual legislativa? Por que é que seguimos pagando e discutindo se os vereadores merecem seus salários, ao mesmo tempo em que continuamos não dando poder de decisão a tantos milhões de conselheiros municipais voluntários nas mais diversas áreas em todo o país? Por que é que odiamos cada vez mais a democracia representativa e, apesar de nos envolvermos e cobrarmos mais, não encontramos satisfação nesses espaços criados pela democracia participativa?

Em Jacarezinho, a cidade do pássaro de peito amarelo e dos gatos pingados, nessa semana mudou apenas um Fucinho. Ricardo Tonet, vereador, popularmente conhecido como Fucinho, voltou atrás, assumiu-se arrependido e colocou-se ao lado dos cidadãos, a favor da diminuição dos salários na Câmara Municipal. Quantos não conseguem enxergar o anseio alheio debaixo do próprio nariz e vão manter apenas a cara de pau?

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