Garotas dinamarquesas de Sorocaba

Eder Brito

17 de fevereiro de 2016 | 08h00

Desde a semana passada, “A Garota Dinamarquesa”, filme do inglês Tom Hooper está nos cinemas do país. Baseado em história verídica, o roteiro trata de assunto delicado: mudança de sexo. Trata, na verdade, de um dos primeiros casos conhecidos de cirurgia para mudança de sexo. Casado com uma pintora, um homem passa a utilizar vestidos e roupas da esposa, como uma brincadeira, auxiliando-a com uma de suas obras. A experiência o leva a desenvolver uma nova personalidade feminina. Experiência delicada, tocante, peculiar, de difícil compreensão para as mentes mais conservadoras.

Apesar das quatro indicações ao Oscar e com o recentemente “oscarizado” Eddie Redmayne em mais uma interpretação sensacional, o filme chama a atenção por aspectos que têm ido além da qualidade cinematográfica. A discussão sobre preconceito e as dificuldades enfrentadas por homens e mulheres trans voltam ao centro de um debate que normalmente esbarra em muitas dúvidas e preconceitos. No caso brasileiro, junte-se a isso o fato de que o telejornal com maior audiência na televisão aberta, (o Nacional da Globo) também decidiu abordar o tema e ajudou a pautar a imprensa nos últimos dias. O programa mostrou uma menina de nove anos, moradora de Mato Grosso, que nasceu menino, mas ganhou na justiça o direito de realizar a mudança de gênero e o nome no documento, com apoio da família. Caso que ainda soa extremo em certos ambientes e que, claro, ainda não envolve cirurgia de mudança de sexo, mas já aponta a evolução do olhar do Judiciário em relação a questões impensáveis na década em que a Garota Dinamarquesa de Tom Hopper viveu.

Evolução só não é palavra identificável em Sorocaba, no interior de São Paulo. Por lá, o legislativo municipal votou por um retrocesso. Em 2015, foi aprovado o projeto de lei que proíbe alunos transgêneros de utilizarem os banheiros “errados” em escolas da rede pública e privada. A ideia veio do vereador e pastor Irineu Toledo, do PRB, partido “ligado” à Igreja Universal do Reino de Deus. A lei municipal surgiu (também) para fazer frente à uma resolução do Conselho Nacional de Combate à Discriminação e Promoções dos Direitos dos LGBTT que recomendava o uso de banheiros femininos para transexuais masculinos em escolas, por exemplo. Na mesma cidade, o Plano Municipal de Educação foi aprovado em junho passado com restrições e muito embate a questão da ideologia de gênero.

O vereador Irineu e todos os vereadores que o auxiliaram na aprovação do projeto talvez nunca tenham a oportunidade de conversar com a garota mato-grossense e com sua família. Também talvez não tenham (e nem queiram ter) a oportunidade de conversar com os profissionais e terapeutas que acompanharam a transição e auxiliaram no processo. Duvido que assistam à “A Garota Dinamarquesa” ou qualquer outro filme que trate do assunto (Transamerica, de 2005, com a Felicity Huffman, aliás, também é lindo). E duvido que qualquer um deles se importe com o sofrimento de qualquer homem ou mulher trans que diariamente passa por constrangimentos, violência física e psicológica, tendo tolidos os seus direitos mais básicos, sendo constantemente ridicularizados por se apresentarem de forma diferente em um mundo que exige padrões o tempo todo. São vereadores que conquistam mandatos, mas decidem legislar apenas em nome de alguns grupos, negando a complexidade do gênero, do desejo e da psique humana. Fingem, muitos com base em preceitos religiosos ultrapassados, que o mundo é padronizado e que a sociedade é simples. Ao menos em outubro, os sorocabanos que quiserem compreender o mal que certo tipo de legislador faz à cidade terão uma chance clara de operar uma mudança na Câmara.

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