Gangnam Style

Eder Brito

13 de abril de 2017 | 16h42

Morei na Coreia do Sul por 13 meses. A maior parte do meu mestrado foi por lá, nas ruas e salas de aula no campus em Anam-dong, subindo e descendo as ladeiras da Korea University. O foco em administração pública fez com que o tempo fosse bem aproveitado para entender o ritmo coreano na gestão pública e conhecer mais a fundo as iniciativas e grandes cases do governo metropolitano de Seul. Naquele momento (2010-2011), o presidente da Coreia era Lee Myung-bak, figura que conseguiu ser alçado ao posto político mais importante do país justamente depois de uma boa experiência como prefeito de Seul.

 

Uma das grandes realizações do então prefeito foi a revitalização do Cheonggyecheon, riacho urbano com mais de cinco quilômetros que estava coberto por vias expressas de concreto e foi “desenterrado” pela gestão de Lee. Até 2003, quando começou o processo de restauração do espaço, suas margens eram tomadas por comerciantes que vendiam mercadorias baratas, o local era uma via expressa elevada sempre congestionada com veículos e um cheiro constante de esgoto. Uma triste mistura de Minhocão com 25 de Março e pitadas de Marginal Pinheiros-Tietê. O local foi revitalizado, limpo, transformou-se em um parque horizontal urbano que devolveu o espaço aos pedestres, virou alternativa de lazer, ponto turístico e local aprazível para eventos culturais e sociais. Presenciar o Festival das Lanternas no Cheonggyecheon, por exemplo, é desacreditar na possibilidade de que o local um dia já foi o desastre ambiental urbano que o século anterior presenciou.

 

Vários aspectos foram importantes para o sucesso do projeto, que acabou se transformando na grande bandeira de Lee Myung-bak para conseguir passar de Prefeito da maior cidade da Coreia ao cargo de Presidente da Coreia (qualquer semelhança com a São Paulo de 2017 talvez não seja mera coincidência). Mas dentre todas as estratégias, preciso destacar que o sucesso do projeto de revitalização teve muito a ver com a constituição de um Comitê de Cidadãos cujo papel era gerenciar os conflitos entre o governo e os públicos diretamente impactados pelo projeto. Os comerciantes, por exemplo, tinham medo de que a revitalização afastasse seus clientes assíduos. O futuro mostrou que eles estavam errados, mas preocupar-se com o diálogo e participação popular desde a concepção do projeto foi essencial para o sucesso do case que se tornou o Cheonggyecheon. Não dá para fazer grandes transformações sem considerar a hipótese de participação massiva, de todos os públicos afetados, na formulação e na implementação das intervenções. Isso é óbvio, mas nem todo mundo faz.

 

Irônico também pensar que Lee Myung-bak era um ex-CEO da Hyundai Construções, empresa que ajudou a construir as pontes e estruturas de concreto sobre o leito do Cheonggyecheon. Um homem que conhecia os meandros da iniciativa privada bem sucedida das grandes corporações coreanas e foi emprestar toda a sua visão de gestor-não-político à administração pública coreana. Acabou presidenciável. Acabou presidente.

 

João Dória está na Coreia e de lá diz querer transformar o Bom Retiro em Little Seul, num processo de revitalização urbana que contará com o auxílio de empresas coreanas sediadas na capital paulista. Gosto da motivação e desse potencial formato, mas da escolha de “Little Seul”, desconfio que o Prefeito batizou a ideia sozinho ou com o auxílio de poucos assessores. Aposto uma garrafa de soju nisso.  Talvez tenham se inspirado na Little India de Cingapura, destino tradicional de muitos businessmen como Dória. Talvez tenham pensado na Little Seoul de Orange County, na Califórnia, que viu sua população coreana mais do que dobrar em 20 anos.

 

A ideia é ótima, mas ainda é uma ideia. Enquanto isso, amigos coreanos trazem notícias do Conseg do Bom Retiro e das várias associações representativas da comunidade coreana em São Paulo e elas não têm sido boas, especialmente no que diz respeito à segurança e limpeza urbana (queremos uma cidade linda e segura afinal, não?). E se quiser falar de revitalização do Bom Retiro, Dória terá que promover processos de participação e envolvimento muito mais densos e representativos do que foram, por exemplo, as audiências públicas para a discussão do Plano de Metas da cidade. E vai descobrir, por exemplo, que o diálogo se dará com coreanos, judeus, bolivianos, árabes e outras tantas comunidades estrangeiras representadas na região. Não tem ninguém torcendo contra o Prefeito, mas tem muita gente torcendo a favor da gestão pública contemporânea. E isso inclui participação social verdadeira.

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