Filho de peixe

Eder Brito

09 de março de 2016 | 20h36

Deve ser muito difícil ser filho de alguém extremamente famoso. Na música, sempre penso no Sean Lennon, filho do John e da Yoko. Imagino que é extremamente frustrante e uma pressão desumana quando alguém como ele decide que também quer trabalhar com isso. A cada álbum lançado, a cada música gravada, tudo sempre será julgado como alguém que não conseguiu superar as expectativas daqueles que creem no talento como algo hereditário. Jacob Dilan, do Wallflowers talvez seja um bom exemplo de alguém que conseguiu enveredar para um caminho parecido com o do pai e fez relativo sucesso (escrevo ao som de “One Headlight”, sucesso do longínquo 1996). Mas também não conseguiu segurar o status por muito tempo, mundialmente falando.

 

A música e a arte brasileiras também estão cheias de exemplos. Maria Rita conseguiu construir bem sua própria identidade, ganhou respeito, mas sempre será a filha da Elis. Fiuk nunca será Fábio Júnior. Preta Gil não depende mais do pai, mas sempre será a filha do homem. Para quem viu “Mulheres de Areia” e o Oscar 2016, Cléo Pires nunca será Glória (se bem que, nesse caso, não sou capaz de opinar. O Romário talvez consiga).  Há outras centenas de exemplos possíveis, simbolizando bem essa pressão. E imagino que são pessoas que cresceram enxergando a profissão dos pais famosos como a melhor alternativa possível.

 

Tenho certeza de que isso também acontece em famílias responsáveis por várias gerações de políticos. É tradicional começar com os Sarneys, mas também dá para esticar a lista e chegar aos Calheiros, Barbalhos, Neves etc. E bota etc. nisso. Mais recentemente, os filhos do falecido Eduardo Campos ocuparam os noticiários com suas nomeações recém-adquiridas no Governo de Pernambuco. Trata-se de tradição que não está restrita ao Brasil. Os Bush nos Estados Unidos são exemplo notório. Na Coreia do Sul, a atual presidente é filha do ditador mais famoso da história recente do país. Considerados todos os exemplos, paira uma dúvida no ar: que rotina, qual “ética”, que valores e que “cultura” permeiam esses lares e famílias? O tipo de motivação é mesmo vocacional? É financeira? São projetos de manutenção do “poder”, seja ele o capital político da família ou a capacidade de produção artística de qualidade? Sei lá.

 

Só sei que essa pergunta tem me acompanhado há dez dias, desde que presenciei uma cena diferente. Estava em um estádio público, esperando o início de uma partida de futebol profissional. Tradicionalmente, os times entram acompanhados de crianças. Os pequeninos entram no campo segurando a mão dos jogadores. Até aí, tudo bem. O que me “sensibilizou” foi a presença do filho de uma importante autoridade daquele município. Com menos de seis anos de idade, o garoto já sabe se portar de maneira imponente e não tem o menor problema em dar ordens a desconhecidos. Ao ser orientado por uma funcionária, deixando bem claro que já tem noção de qual é a profissão do pai, com o dedo em riste, avisou em alto e bom som que entra onde quiser, quando quiser e ninguém pode barrá-lo, porque seu pai tem um importante cargo na gestão municipal. Não uso as palavras exatas do menino e não revelo a cidade ou o cargo do pai por uma questão ética. Também porque temo por represálias, considerado o perfil do político em questão e a dificuldade dos nossos representantes em lidar com críticas construtivas.

 

Que frases ouve o garotinho? Que tipo de afirmação circula a seu redor a ponto de já ter suas atitudes influenciadas a esse ponto, tão cedo? Sinto-me estranho e injusto de analisar a atitude de uma criança tão pequena, mas isso aconteceu. Mantido esse desvio, eu não quero ser o garçom que vai atendê-lo no restaurante daqui a dez anos. Temo por seus professores, motoristas e babás. Não quero ser a agente de trânsito que vai aplicar uma multa e tirar os pontos de sua CNH. Definitivamente, não serei um de seus eleitores, caso ele siga os passos da família. Rogo para que se torne músico ou ator e esse seja apenas um episódio isolado, objeto de um texto que disse a verdade do momento e não a do futuro.

 

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