Fantasias e fantasmas

Humberto Dantas

20 de fevereiro de 2017 | 07h09

Não são poucas as críticas ao prefeito de São Paulo em relação às suas aparições públicas vestido em trajes de servidores dos mais diferentes serviços públicos. Mas as pesquisas, que incorporam a opinião de diversos cidadãos, mostram que a estratégia tem dado certo. Dória tem agradado, e já há quem projete que ele se fortalece para as eleições de 2018 no estado. Cedo demais para dizer, mas é importante salientar que a estratégia tem sido utilizada em outras cidades, espalhadas pelo Brasil. Exemplos não faltam.

Nesse sentido, prefeitos estariam se “fantasiando” para trabalhar. E nada mais adequado que esse tipo de comportamento em plena semana que antecede o comemorado e aguardado Carnaval – a mais popular e relevante festa do Brasil. Em 2015, por exemplo, o então prefeito de Peabiru, no Paraná, foi às ruas da cidade de menos de 15 mil habitantes em plena folia, fantasiado com adereços que apelavam para a economia de água. Em 2016, no entanto, em disputa equilibrada em que três postulantes ultrapassaram os dois mil votos, o petista não foi reeleito. Improvável que a fantasia tenha o atrapalhado, mas a eleição não foi vencida.

Voltando a 2017, nem sempre as “fantasias” tiveram utilização que fomentasse um bom debate político. Em Novo Gama, entorno do Distrito Federal, em Goiás, dois sujeitos se fantasiaram de fantasmas para assaltarem a prefeitura. Vídeos que assombraram a internet mostram duas “almas de outro mundo” com lençóis sobre a cabeça e furos nos olhos “apavorando” o bem público. A madrugada do Réveillon foi o instante escolhido para o surrupio. A polícia suspeitava de servidores, pois por mais que simulassem arrombamentos de portas, na hora de entrar com o carro para a alocação de impressora no veículo, o controle remoto do portão foi o meio utilizado para o ingresso.

Dias depois tudo se confirmou. Os dois abantesmas eram ex-secretários municipais, respectivamente de transporte e desporto, lazer e turismo. Bêbados em plena passagem do ano viram graça em assustar os vigias. Quando perceberam que estavam no interior do prédio, aproveitaram para, nas palavras do delegado: “levar uma impressora como recordação”. Que bela lembrança! Que forma surreal de mostrar zelo pelo bem público. Os fantasmas, que comumente são utilizados como sinônimos de servidores que ocupam os cargos públicos sem trabalhar, agora se materializam nas repartições e levam, para o além, mimos de suas passagens pelo poder – lembrando que o chefe da dupla não se candidatou à reeleição por figurar em listas do Tribunal de Contas de Goiás como ficha suja. Justo ele, que em 2014 era acusado de investir em um ano R$ 4 milhões em materiais de limpeza numa cidade com 100 mil habitantes – segundo o L1 News, em 2012, foram R$ 140 mil em produtos.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.