Espeto de Ferro

Eder Brito

06 de agosto de 2014 | 12h53

No próximo dia 30 de agosto, o município de Arceburgo, em Minas Gerais, vai festejar 103 anos de emancipação. A pequena cidade de 10 mil habitantes provavelmente já iniciou os preparativos da festa, mas no mesmo período a prefeitura também precisará lidar com uma crise interna, pois um dos integrantes da administração municipal acaba de ser preso. É o Secretário Municipal de Meio Ambiente, João Carlos de Souza Dias, que foi detido durante operação da divisão de meio ambiente da polícia militar do Estado.

O fato de que um personagem da política em uma cidade pequena cometeu uma infração, infelizmente, não surpreende e não soa como novidade. O problema é a acusação. João foi detido em uma ação contra a caça ilegal de animais silvestres. Além de armas e munições ilegais, os policiais encontraram cinco quilos de carne de capivara recém-abatida. Repetindo: João é Secretário Municipal de Meio Ambiente em Arceburgo. A pasta tem, entre várias outras, a missão de aplicar sanções relacionadas ao descumprimento da legislação ambiental no município.

Procurada por este blog, a Prefeitura não quis comentar o ocorrido. Por telefone, uma funcionária da Secretaria disse apenas que “quem deveria falar é o Secretário, pois esta é uma questão pessoal, que não tem nada a ver com a Secretaria”. Ele não estava na Secretaria. João tem o nosso telefone, mas até a última atualização deste post não retornou as ligações. Provavelmente, diria o mesmo que já disse a outros jornalistas. Na versão apresentada às autoridades, alega que a capivara foi morta por seus cachorros quando ele não estava presente. Depois só aproveitou que o bicho já estava morto e ficou com a carne.

O mineiro não é o primeiro gestor da área com este tipo de problema. No último mês de maio, Antonio da Cruz Sampaio, Secretário de Meio Ambiente de Serrita, cidade de Pernambuco, também foi detido, acusado de possuir uma propriedade onde ocorre a prática ilegal de garimpo, com uso de substâncias tóxicas como o mercúrio, que contaminam o solo, a água e colocam em risco a fauna na região.

Mais do que julgar as atitudes individuais dos dois senhores (ação que agora cabe à Justiça), a intenção aqui é cravar algumas perguntas: de onde surgem secretários municipais de meio ambiente que se relacionam desta forma com a fauna em suas próprias cidades? Que tipo de políticas públicas irão elaborar e comandar os senhores que protagonizam tais estórias? Como foi o processo de escolha dos titulares desta pasta pelos Prefeitos que os nomearam para as respectivas posições?

É verdade que o “clima” político em Arceburgo não deve ser dos mais simples. O atual prefeito, Antônio Gregório Militão, do PSDB, ganhou a eleição por apenas 13 votos de diferença. Ele teve 2.932 votos e seu adversário, Gilson Pereira de Mello, do PR, recebeu votos de outros 2.919 eleitores. Quão difícil é governar um município que tem disputa tão acirrada nas urnas? Que tipo de concessões um Prefeito eleito neste contexto precisa fazer?

Posso emprestar um último raciocínio e dizer que, em uma curta carreira de 11 anos na gestão pública municipal, nunca vi profissionais de educação física comandarem secretarias de esportes, nem sempre vi médicos gerindo secretarias de saúde e jamais vi um gestor ambiental de formação ocupando a posição de secretário municipal nesta área. Muita casa de ferreiro com espeto de pau.