Era uma vez… num reino muito distante…

Humberto Dantas

14 de novembro de 2016 | 07h38

O blog hoje quebra o protocolo e publica uma antiga fábula. Não sei exatamente de quem ela é, mas vamos lá. Como de costume, histórias desse tipo têm como personagens figuras da nobreza e/ou bichos com postura humana. Aqui destacam-se os reis, príncipes, súditos e bobos. Vamos lá.

 

Num principado distante, as carruagens foram proibidas de ultrapassar certa velocidade nas estradas que margeavam os seus dois mais relevantes rios. A medida tinha como objetivo reduzir o número de acidentes com vítimas, e estava sintonizada a muito do que o príncipe, filho de um rei re-transformado em sapo barbudo por uma sucessão de escândalos e encantos, ouvia falar sobre a necessidade de ofertar maior segurança aos seus súditos. A decisão não foi debatida, afinal de contas num reinado manda quem pode e obedece quem tem juízo. E assim foi. Foi imposta!

 

Transtornados, alguns súditos se rebelaram e passaram a criticar fortemente a medida. Como os cavalos que puxam as mais belas e caras carruagens – além de estamparem as mais nobres roupas – poderiam ser contidos em suas naturezas velozes? Como arrefecer o ímpeto do local conhecido por “nunca parar”? Pela pressa! Pela intensidade! Com motivos de sobra para convencer outros tantos súditos dos absurdos da medida, o principado foi tomado em um gesto surpreendente por “Juan, O Labutador Veloz”. Rapidamente e de forma surpreendente o príncipe “Ferdinando, O Tranquilo”, foi deposto. Dizem que sob a forte influência de um ente superior, um soberano de reinado maior conhecido como “Gerônimo, O Insosso”, que sonhava com a antiga grandeza do já citado batráquio e era pai de Juan, um sujeito muito trabalhador. A partir daquele instante, a velocidade voltaria a fazer parte da paisagem. As margens dos rios se transformariam novamente em um local rápido.

 

Mas o problema é que entre o discurso que agradou e os fatos consolidados, passou a existir uma distância imensa. O soberano maior, Gerônimo, foi convencido de que efetivamente aquela era a melhor medida a ser tomada: reduzir a velocidade. E passou a discursar pelo mundo defendendo programas que zelam pela segurança viária.

 

Pudera! Além de estudos verdadeiros, que passaram a ser comunicados com maior eficiência após a tomada do principado, a ideia da redução era financiada pelos mais prósperos comerciantes de todo o reino. E estes disseram que só investiriam recursos no principado se o soberano maior garantisse que o novo príncipe não elevaria a velocidade das vias que margeavam os belos rios. Impossível! Como agradar aos súditos dizendo exatamente o contrário daquilo que teria sido utilizado para convencê-los a aderir ao novo mandante? Simples! Rei e príncipe foram apresentados a um italiano, de nome Nicolau, que havia escrito uma obra para que soberanos mantivessem o poder. Suas lições eram infalíveis. Numa delas, que parece ter sido cortada das edições conhecidas da publicação, estava escrito assim: “diga que tentou de todas as formas fazer algo do qual desistiu de realizar, e coloque a culpa pelo fracasso num organismo chamado justiça”. Simples assim, sendo necessário apenas combinar com esse organismo neutro. Neutro? Combinar?

 

Advertência ao leitor: qualquer semelhança com o que se viu ou verá em algum lugar do mundo é a mais mera coincidência. Ahhh depois dos súditos, príncipes e dos reis, faltou falar onde estão os bobos citados no começo… Precisa dizer?

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