Entre novidades e velhas manias

Humberto Dantas

19 de janeiro de 2015 | 08h05

Conquistas colocam cidades no mapa da modernidade e do orgulho. Por sinal, tão triste quanto ver a revolta de alguns municípios quando recebem unidades prisionais é ver a alegria quando uma grande empresa anuncia a construção de unidade fabril capaz de gerar empregos. Foi assim em Iracemápolis, interior de São Paulo. A Mercedes se instala na cidade, pra alegria dos moradores e do entorno. E para comemorar o feito, o avanço foi sentido na praça, no cotidiano das crianças que um dia poderão trabalhar, quem sabe, na firma automotiva. Assim, ao invés de brilhar no topo da árvore de Natal, a estrela estava lá, reluzindo no capô do bólido branco que trouxe Papai Noel em dezembro. Isso mesmo, se na capital do estado ele veio de bicicleta, para anunciar os novos tempos, em Iracemápolis o bom velhinho surgiu num esportivo alemão. Renas que nada! Centenas de cavalos, de potência.

Mas se por um lado a cidade é alimentada pela modernidade vindoura, por outro ainda convive com um passado político antiquado. E não estou falando da necessidade de a prefeitura suprir o serviço de anúncio funerário da igreja. Isso ocorreu faz algum tempo. Existia por lá algo comum em cidades do interior: por meio de alto falante e sino a Igreja anunciava a morte de algum cidadão. O narrador fúnebre de Iracemápolis era tão famoso e identificado com o serviço que após sua morte o padre decretou o fim do serviço. Revolta geral! E a prefeitura, por meio de uma servidora, teve que enfrentar o desafio. Dizem que o alto falante saiu da torre da igreja e foi parar em cima da caixa d’água. Tudo voltou ao normal – ou quase isso.

Mas volto a insistir: não estou falando desse tipo de tradição, que caracteriza a cultura de um local. Estou falando da velha mania de os vereadores nominarem logradouros como se esta fosse uma das principais funções de nossos parlamentares locais. Não que ruas não mereçam nomes, e que isso não traga dignidade. Mas vereador exagera, e isso a ONG Movimento Voto Consciente mostra faz anos. Mostra, combate e os políticos continuam lá: firmes, ignorando. Pois bem, em Iracemápolis, recentemente passou a tramitar na Câmara Municipal projeto que dá nome ao “pomar localizado atrás da rodoviária”. Isso mesmo! No espírito de nomear tudo, lá está o projeto do espaço de cultivo, de autoria do vereador Perci e do Padre Marcelo Franco de Campos – não me pergunte porque o padre tem que aparecer como autor, mas aqui está a política e suas artimanhas. Quem negaria um pedido do padre na Câmara? E se você acha que isso tudo é normal: perfeito. Pode achar, sinceramente falando. A homenageada, inclusive, é Dona Fia, a primeira mulher a se candidatar a vereadora na cidade em 1982: que maravilha! Mas você não viu nada. O ímpeto dos legisladores de Iracemápolis é mais denso que o gesto de nominar um pomar – isso é apenas fruto da tradição, com o perdão da infâmia. Corre por bocas miúdas que faz algum tempo os vereadores encaminharam consulta para saber se é legal dar nome às alamedas do cemitério da cidade, que normalmente são numeradas ou respondem por letras e coordenadas que permitem a chegada aos túmulos. Nesse sentido, o que pretendiam? Difícil dizer, mas vindo de alguns vereadores tudo é mais do que esperado. A Mercedes imponente que trouxe Noel podia levar pra longe esse tipo de prática… Difícil, quase impossível!

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