Então prefeito que passou no próprio concurso é irmão do ex-prefeito acusado de corrupção

Humberto Dantas

15 de agosto de 2016 | 06h50

Eu juro que me esforcei. Queria escrever um texto dotado de humor, como normalmente tentamos fazer aqui. Também tentei buscar algum elemento extraordinário, mas a história já é absolutamente acima de qualquer padrão de normalidade. Na verdade: é a cara de um país que ainda confunde de forma absoluta o interesse público e o privado. Vou tentar resumir numa frase o que tentamos trazer aqui hoje e ganhou o noticiário faz alguns dias:

 

O prefeito abriu um concurso com uma vaga na cidade, se inscreveu, prestou, ficou em terceiro lugar, viu os dois primeiros desistirem, foi empossado pelo vice, voltou pra prefeitura, não foi reeleito, terminou o mandato e voltou pro seu cargo.

 

Viu? Essa promessa eu cumpri. Escrevi a bizarrice narrada pelo Jornal Folha de S. Paulo em uma única frase. Preciso dizer mais alguma coisa? Sim, vamos lá: derrotado em diferentes instâncias, o concursado advogado do município, que perdeu a reeleição por menos de 50 votos para a atual mandatária, ganha cerca de R$ 4 mil por mês – valor abaixo, apenas, de sua adversária em 2012 – e diz que continua no cargo até que se esgotem todos os recursos. Em ano olímpico só nos resta um: Brasilsilsilsilsilsil!

Mas o que fazer agora em nosso texto? Vejamos: o ex-prefeito se elegeu com o nome “Nenê Irmão do João da Caixa”. Por quê? Acho que descobri: João era candidato em 2008 quando os arquivos afirmam que ele renunciou ao posto. Como normalmente esse tipo de gesto está associado a problemas na justiça, quem seria colocado no lugar? Alguém de confiança. E num país que confunde tanto o público com o privado, obviamente lá veio o irmão. Com pedigree e tudo no nome de urna. Não bastava Nenê. Tinha que ser: “Nenê Irmão do João da Caixa”. O todo poderoso.

Mas por que Caixa? A profissão do ex-prefeito em fichas da justiça eleitoral é bancário. Assim, só nos resta supor que Caixa deva ser a Caixa Econômica Federal ou a finada Nossa Caixa Nosso Banco do Estado de São Paulo. E vou dizer: tem muito gerente da Caixa Federal que se elege ou tem poder político expressivo nas pequenas cidades brasileiras. O poder de tratar com liberação de dinheiro de diferentes naturezas transforma esses agentes em elementos estratégicos. Muitos são nomeados secretários municipais. Vários se reúnem com prefeitos eleitos para decisões estratégicas. Em Gravatá-PE, por exemplo, em 2008 o candidato eleito prefeito, Ozano Brito, foi mais de uma década gerente do banco no local. Por sinal, vou dar essa dica para jovens pesquisadores: que belo trabalho de mestrado uma dissertação sobre a força política da “querida” Caixa em eleições municipais. Será que alguém já fez?

No caso descrito aqui, o poder de João da Caixa é tão grande que na Câmara Municipal está Fabiana. E sabe como ela se elegeu vereadora em 2012? Com o maravilhoso nome: “Fabiana filha do João da Caixa”. Mas vamos lá, um pouco mais de esforços pra chegarmos em quem de fato é esse João da Caixa. Fácil! João dos Reis Almeida Silva foi eleito prefeito em 1996 e reeleito em 2000 na pequena cidade de Cássia dos Coqueiros, São Paulo – perto de Ribeirão Preto e também de Mococa. Impressiona como facilmente as pesquisas virtuais o ligam a diversos escândalos de corrupção na cidade. Vários portais trazem condenações e processos. Dentre eles, o Congresso em Foco, o Tribunal de Contas da União etc. Seria essa a razão de ter-se afastado em 2008? Criando a figura-legado do “Irmão do João da Caixa” e da “Filha do João da Caixa”? Provavelmente sim, mas nesse caso terminamos com a pergunta: o que faz com que o povo ainda vote e oferte poder a figuras, ou familiares de agentes, que devem tantas explicações das mais diferentes à sociedade local e à justiça? Em ano olímpico: Brasilsilsilsilsil!

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