Encontro Nacional dos Políticos do Futuro

Eder Brito

02 de setembro de 2015 | 22h01

Hoje conheci um corrupto. Chegou disfarçado de colega, dando tapinha nas costas, celebrando a democracia e elogiando o trabalho de quem se esforça para “ensinar política” por aí. O discurso começou como se estivesse sendo apresentada uma solução. No fundo, era um pedido de “favorecimento”. Era a tentativa de sugerir que algumas regras fossem ignoradas para que seus desejos se tornassem realidade, de preferência de forma rápida. No fim das contas era só mais um querendo dar um jeito nos próprios problemas. A expressão “uma mão lava a outra” foi utilizada mais de uma vez durante o encontro, como se fosse uma justificativa técnica plausível. Fiquei mal. Saí do encontro com dor de estômago e vontade de gritar. Preferi escrever.

Onde é que o sujeito aprendeu que é assim que as coisas são feitas? De qual tipo de processo participou ao longo da vida para entender que esse é o jeito correto de encaminhar questões que envolvem políticas públicas? Certamente não foi em uma sala de aula. Certamente não foi em um curso de administração pública.

Nossos esforços de ensino e pesquisa em administração e gestão de políticas públicas ainda são muito recentes. Por isso, muitos dos lugares que poderiam (deveriam) apresentar-se ocupados por profissionais devidamente graduados ainda são preenchidos por “concurseiros” infelizes ou oportunistas que não se esforçam muito para cumprir com os ideais republicanos. Tal espécie obriga uma maioria de servidores competentes a se esforçar demais para manter a coisa toda de pé, procurando diariamente satisfação em meio ao que fazem e não permitindo que os governos e políticas implodam.

Há menos de 20 anos existiam apenas três cursos de graduação dessa área no Brasil. Mestrados também surgiram e cresceram muito recentemente, a partir do início do século XXI. O primeiro Doutorado surgiu há menos de 15 anos. É impossível não relacionar essa falta de formação e pesquisa com o descontentamento geral que ainda existe em relação à qualidade da gestão pública no Brasil e ao ambiente tão facilmente permeável por práticas ineficazes e, como tem mostrado a história, muitas vezes também ilegais.

Nosso ódio em relação aos partidos políticos e indivíduos que ocupam cargos eletivos está absurda e negativamente relacionado com essa falta de capacidade técnica de quem opera as nossas instituições e organizações públicas. São espaços que ainda servem de terreno para a atuação de calhordas como o que tive o desprazer de conhecer hoje. E não tem nada a ver com a teimosia em aplicar práticas da “gestão privada” para lidar com o público. É falta de vontade de entender as peculiaridades do agora chamado Campo de Públicas.

Isso está mudando. A área cresceu exponencialmente, principalmente nos últimos quinze anos, culminando na homologação das Diretrizes Curriculares Nacionais de Administração Pública, em 2013. Toda a história dessa recente evolução está registrada em um dossiê, assim intitulado pelos autores de um belo documento, apresentado também há dois anos atrás, desenvolvido por professores e pesquisadores da área que ajudaram e ainda estão ajudando a mudar essa realidade e a mostrar o crescimento do Campo nesse período.

Desde 2002, acontece também o ENEAP – Encontro Nacional dos Estudantes dos Cursos do Campo de Públicas, parte importantíssima dessa história. No próximo final de semana, o ENEAP de número XIV ocorre em Atibaia, interior de São Paulo, durante o feriado que, ironicamente, culminará com a celebração de nossa Independência. Centenas de estudantes do Campo de Públicas estarão reunidos, debatendo seus cursos, desafios e o “mercado de trabalho” que os espera.

Que tenham a oportunidade de entender que precisarão sair das Universidades diretamente para as pequenas prefeituras do país, em busca da melhoria da gestão nos municípios, próximos de onde as pessoas mais percebem a qualidade da política pública. Que se lembrem do programa Mais Gestores, ideia da própria FENEAP (Federação Nacional dos Estudantes do Campo de Públicas), inspirada no programa Mais Médicos que deseja levar capacidade técnica onde poucos profissionais querem ir. Estarei por lá, acompanhando e participando, pronto para me livrar do mal estar do encontro de hoje.

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