Empurrãzinho…

Humberto Dantas

27 Abril 2015 | 15h33

Certa vez minha esposa me disse por telefone que havia pintado as unhas de nude. Mais tarde, num café com minha mãe ouvi que a sala de jantar ficaria mais bonita se jogasse um nude na parede, se referindo à cor. Comentários desprovidos de qualquer compromisso com a lógica do respeito aos gêneros (e me perdoe por isso) dizem que mulheres têm em mente milhões de cores, enquanto boa parte dos homens não consegue distinguir mais de dez delas. Orientado pela curiosidade fui atrás de entender o que era o nude. Com um empurrãozinho descobri que era um bege mais escuro “metido a besta” que consta até no catálogo de cores de alguns fabricantes de tintas.

Faz algumas semanas encontrei um amigo. Formalmente foi meu aluno no Master do CLP, mas numa turma em que em momento algum tive a sensação de que fui professor ou docente. Eles eram tão geniais que me senti apenas um orientador dos debates. José Moulin, servidor público no Rio de Janeiro me pediu dois minutos, que sua genialidade e minha curiosidade transcenderam de forma aberrante. Começou a conversa me perguntando se eu sabia o que era nudge. Como duvidei que ele quisesse falar de cores, sobretudo porque a pronúncia soava diferente, para não pagar o mico da rodada fiquei quieto e disse que não fazia ideia da resposta. Ele me mostrou. E descobri que a exemplo da cor, o nudge de meu amigo também era um detalhe. Mas nesse caso nem um pouco “metido a besta”. Assim, um nudge deve ser entendido sob dois aspectos: a) algo capaz de transformar uma realidade por meio de uma ação simples e; b) um método. Ou seja, não é apenas uma ideia brilhante, mas também algo “simples” testado cientificamente. Vamos aos exemplos.

Na Holanda a pintura do desenho de uma simples mosca no fundo do mictório diminuiu em 80% o volume de urina no chão ao redor dos lugares destinados ao “descarte” dela – o sujeito passa a se preocupar com a “mira”. Isso é genial, e foi testado. Em alguns banheiros tínhamos a mosca, em outros não. Testou, pesquisou, comparou, comprovou e: alstublieft! (o voilá em holandês). No Brasil, e esse blog já tratou disso quando mostramos que a composição de funks e a tradução livre de algumas músicas de sucesso ajudavam na arrecadação de impostos, a maioria dos exemplos está associada ao envio de mensagens em SMS ou coisa parecida. Funciona de maneira simples e provada cientificamente: uma prefeitura manda mensagens lembrando, por exemplo, que o cidadão tem uma consulta médica, que deve tomar um medicamento, ou manter-se num tratamento e isso aumenta o sucesso da ação em relação àqueles que não receberam a mensagem. O simples, no entanto, não é assim tão banal. Perceba que para que isso efetivamente seja entendido como eficiente, as mensagens devem ser testadas. Em alguns casos isso pode ser feito em diferentes ritmos e públicos. Algumas delas são mais diretas, outras mais rebuscadas, uns grupos recebem e outros não, e assim descobriremos: se funciona e em que ritmo funciona. Genial! E dessa forma um nudge pode cumprir sua principal função: dar um “empurrãozinho” para que pessoas escolham alterar um determinado comportamento em benefício da coisa pública. A Prefeitura do Rio de Janeiro já está usando desta metodologia para recuperar IPTU em atraso, mandando lembretes ao cidadão devedor. Em cidade na Inglaterra, essa cobrança é feita da seguinte forma: “você sabia que os seus vizinhos todos estão em dia com o tributo?”. É o suficiente. A questão, no caso brasileiro, é ver como esse empurrãozinho deve ser dado…