Em tempos de bacanal

Humberto Dantas

04 de agosto de 2014 | 07h50

Em tempos de “bacanal eleitoral”, fenômeno que como descrito por alguns parece fantasioso e tende apenas a aparecer em boca de político insatisfeito com acordos celebrados por seus partidos ou em parte sensacionalista da imprensa, como explicar alguns posicionamentos pessoais? Por exemplo: pense num membro do Partido Verde que seja extremamente religioso, cristão, e tenha que enfrentar a plataforma eleitoral do candidato à presidência Eduardo Jorge, que fala, escancaradamente, em aborto. Isso é quase “cláusula pétrea” na legenda – se bem que a fiel Marina Silva andou freando ímpetos em 2010. Mas e na Assembleia Legislativa de São Paulo que temos um padre eleito pelo PV? E na Câmara dos Deputados que temos um pastor eleito pelo PV? Certamente a palavra bacanal, misturada às mais diferentes lideranças religiosas, pode causar desconforto expressivamente maior que aquele associado ao comportamento dos partidos. Pois imagine agora uma cidade em que uma chapa puro sangue do PV foi eleita em 2012 com prefeito padre e vice pastor. Uau! Mas deixemos isso de lado por alguns instantes. Os religiosos. E fiquemos com a cidade: Santa Isabel, no interior de São Paulo.

 

Por lá parece interessante observar o que, de fato, seria uma variação desse bacanal político, a despeito da confusão ideológica acima. Tomemos como exemplo a mania de os representantes capitalizarem em cima de emendas parlamentares. O fenômeno é tão comum que fez o presidente da Câmara dos Deputados encantar seus colegas com a ideia do orçamento impositivo, que transforma o legislador em um micro executor – o prefeitinho do varejinho. Deputado estadual paulista, de alta patente, por sinal, já afirmou que função de parlamentar não é legislar ou fiscalizar, mas sim defender interesse de prefeito. Despachante de luxo! Numa lógica mais elegante: embaixador municipal. Tá vendo? Nada que uma boa tinta dourada não resolva. Mas continuemos: dia desses apareceu nas redes sociais uma queixa contra o deputado Roberto de Lucena (PV-SP). Ele comemorava, em boletim informativo do seu gabinete, a conquista de quase R$ 1 milhão para a Santa Casa de Santa Isabel-SP – em época de escassez de recursos para Santas Casas, isso seria uma benção divina. Mas o provedor do hospital, Benedito Machado Ribeiro, o Dito Nó, tratou de desmentir a conquista no jornal O Ouvidor: “esse dinheiro não existe, nunca existiu, e nunca existirá”. Será? E como pode ter ido parar no informativo do deputado?

 

No mesmo jornal, o ex-provedor Luís Carlos Corrêa Leite voltou à carga: políticos em “tempos eleitorais passam a dedicar às Santas Casas uma atenção que realmente não existe quando terminam as eleições” e ainda completou que o hospital “tem sido vítima da cobiça da política miúda que há muito domina a cidade”. Como pode? O deputado se defendeu, no mesmo jornal, e aproveitou para criticar antecessores locais. Afirmou que a gestão passada na cidade perdeu recursos orçamentários que ele garantiu, e que agora, de fato, estava reservando quase R$ 1 milhão para o hospital – se serve de garantia, seu irmão é o vice-prefeito, o pastor. E antes que alguém pensasse que ele estava em litígio com os provedores, atenção: “renovo (…) com o Provedor Benedito Machado Ribeiro, a Irmandade, e a administração, e principalmente com os isabelenses, o meu compromisso de continuar trabalhando e apoiando a Santa Casa de Misericórdia de Santa Isabel, através desse instrumento que Deus e o povo de São Paulo me confiaram, que é o mandato na Câmara dos Deputados”. Deus? Num estado laico prefiro separar religião e Estado, mesmo porque, ao menos no catolicismo, padre sequer deveria se candidatar de acordo com o Vaticano. Prefiro também separar a religião do título desse texto.