Eles merecem?

Humberto Dantas

11 de abril de 2014 | 08h00

O sistema se retroalimenta. Deputados federais e estaduais ouvem prefeitos e vereadores. De posse de suas reivindicações intermediam tais interesses junto às secretarias e aos ministérios, e sempre que possível diante de governadores e presidentes. Quanto mais lutam por recursos extraordinários, mais se enchem de razão para pedirem apoio político aos líderes locais, ou seja, seus “cabos eleitorais”. Dois anos depois a coisa se inverte. Deputados incluem em seus compromissos o contato com antigos doadores de campanha. Pedem ajuda para que seus “amigos” espalhados por um conjunto estratégico de cidades sejam reeleitos. Aparecem nas campanhas e gritam nos comícios. Uma forma de “manter o trabalho”, pois dois anos depois serão eles a precisarem dos prefeitos e vereadores plantados na ponta, pedindo voto. E quem tiver dúvidas sobre esse “modus operandi” leia entrevista à Folha de S. Paulo do deputado estadual Barros Munhoz (PSDB-SP) onde parte da lógica fica clara: “a função mais importante do deputado não é legislar nem fiscalizar, é representar as cidades, e hoje a gente é acusado como se fosse um crime fazer isso, ajudar um hospital, uma prefeitura”.

 

Diante de tudo o que relatamos aqui, claro que você está sentindo falta de alguém importante nessa relação: o cidadão. O time de políticos acima vai dizer que ele é o público alvo de toda essa luta. Pode até ser verdade, mas importante lembrar os recentes escândalos envolvendo desvios de recursos de emendas que poderiam ser utilizadas para “glorificarem” o bem estar geral. Assim, o eleitor terá a sua vez, mas não esqueça que é a palavra FIM que lemos na urna eletrônica ao término da votação. Enquanto isso, as relações entre “eles” não param nunca. E em ano eleitoral se tornam ainda mais intensas.

 

Com base nessa forma de manter a rede, deputados são homenageados em câmaras municipais. Quando eles chegam nas cidades é rojão, faixa, discurso e destaque na imprensa local. Campanha? Não! Nunca! Não diga isso! Apenas uma forma de “a cidade” agradecer aquele parlamentar federal ou estadual por tudo o que fez “pelo povo” em pleno ano eleitoral. Mas o que fez? Depende. O certo é que as homenagens em anos eleitorais aproximam o “benevolente” representante do eleitor local. Mas tudo isso pode ser apenas coincidência ou merecido reconhecimento. Algo legitimado. Vejamos alguns casos só de 2014: em fevereiro o deputado estadual e ex-prefeito de Ribeirão Preto, Welson Gasparini (PSDB), foi homenageado pela Câmara Municipal de Ituverava. Emocionado, afirmou não esperar tanta gente numa noite de quarta-feira. Assim, de surpresa, e sem sequer preparar um discurso, teve que falar com o coração, relata o site do parlamento local. No Pará, a Câmara de Santa Maria das Barreiras homenageou o deputado federal Beto Faro (PT) pelos recursos enviados à cidade, avisa de forma direta o blog do Dinho Santos. Em Manacapuru (AM) o parlamentar agraciado pela Câmara Municipal atende pelo sugestivo nome de Orlando Cidade (PTN). Por fim, Sandro Alex (PPS) foi o nome do evento ocorrido em março no parlamento da paranaense Jaguariaíva. O evento teve faixa de agradecimento e contou com parlamentares locais, prefeito e juiz.

 

Diante de tal cenário, e com base na declaração de Munhoz sobre as funções dos deputados que lutam por cidades: o que dizer? Pelo visto render homenagens, transformando câmaras municipais em salões de festas, onde além de políticos são glorificados instituições e outros ilustres sujeitos, é parte da mais absoluta tradição. Tudo assim, sem qualquer interesse eleitoral, sem qualquer desejo extraordinário. O padrão “espaço de eventos” do Legislativo local é mesmo indispensável? Depende de como os cidadãos olham pra isso. Depende do que entendemos pela utilidade do dinheiro público.