Eduardo Jekyll Hyde Paes – o prefeito, o médico e o monstro

Humberto Dantas

21 de março de 2016 | 07h34

O “Estranho caso de Dr. Jekyll e Mr. Hyde” é um livro do fim do século XIX convertido em filme na década de 40 sob o título de “O médico e o monstro”. A partir disso diversos desenhos animados passaram a adaptar para os seus personagens a história do cientista que apostava que dentro de cada um de nós habitavam o mal e o bem. Dr. Jekyll, buscando provar tal hipótese elabora uma fórmula e a ingere. A partir daí o erro maior: pensou que teria controle sobre o experimento. “Só que não!”. Lembro-me do Pica-Pau tomando a poção e virando monstro e de tantas outras adaptações. Pois bem, na política, por vezes, tenho a sensação que Jekyll e Hyde governam cidades.

Eduardo Paes é um desses políticos hábeis que encontram oportunidades e parecem se firmar em torno delas. De estudante de direito a figurante de novelas da Globo no passado, atualmente o prefeito que tem acumulado prêmios e casos de boa gestão por vezes se transforma em monstro. Da década de 90 aos anos 2000 circulou entre três dos grandes partidos brasileiros. Do imenso PFL (hoje o combalido DEM) ao PSDB, dos tucanos ao PMDB. E onde foi que tomou a poção? Na juventude? Na faculdade? Ou todos nós temos, desde sempre: um pouco de médico e uma pitada de monstro? Imagino que, no mínimo, Paes tem demonstrado sintomas desde que foi reeleito prefeito com votação esmagadora – quase dois terços dos votos em 2012. A cidade encarnava com elegância a parte da música que afirma que ela “continua linda”. Obras, avanços, ousadia, tudo sendo gestado e capacitando seu prefeito a pensar em voos mais altos como o governo do estado ou, a depender do sucesso das Olimpíadas e do reconhecimento do fragmentado e instável PMDB, a Presidência da República. Perfeito, é isso! Existe a chance. Ao menos da candidatura. E assim o “médico” tem rodado o Brasil e o mundo com palestras. Conheço várias pessoas no seu governo que trabalham com orgulho, motivação e vontade. Ótimo! Genial! Mas e o monstro?

Ele é cruel e aparentemente está na fase do descontrole. Se voltarmos no tempo, sem exageros, chegaremos em 2013. Num restaurante foi xingado por um músico de apelido Botika que não se arrepende do que fez, apesar de estar errado. Mas o povo, a voz da rua, o ímpeto não podem ser contrapostos com violência pelo mandatário. O homem público tem aparato pra conter tais ânimos e deve ter sangue fRIO. Sangue o quê? Pois é. Nem sempre dá pra segurar o monstro, e Paes deu um murro na face do sujeito. Percebendo as consequências do ato, divulgou nota óbvia: perdeu a cabeça, as críticas são bem vindas e exageros não são razoáveis. E disse que não poderia “ter reagido como o fiz. Peço desculpas à população da minha cidade pela maneira como agi”. Ok, coloca no caderninho e segue.

E nesse ano três fenômenos se seguiram. Ficam parecendo os episódios de “O Incrível Hulk”, seriado dos anos 70 e 80, em que depois da fúria, e já sem o verde que o inflava em músculos e ódio, Dr. David Bruce Bonner, uma espécie de adaptação de Jekyll & Hyde, voltava pra casa com ar de ressaca moral. Pois é. Recentemente Paes, talvez buscando manter o padrão de monstruosidade dos mandatários da capital, resolveu com o PMDB apoiar o deputado e secretário Pedro Paulo para sua sucessão em 2016. A despeito dos atributos “medicinais”, ou seja, em nossa metáfora aqui das possíveis habilidades do pré-candidato, é este quem admitiu ter agredido fisicamente a ex-mulher. Inicialmente uma vez, depois mais de uma. Detalhe: tentou se justificar numa coletiva em que estavam presentes a atual mulher, a ex que foi agredida e o atual marido dela. Bizarro, mas é o candidato do monstro. Ops: do médico!

Ainda mais recentemente Paes levou o filho ao pronto-socorro público e resolveu pagar geral. Passou pela fila do privado, achou longa e lembrou que como prefeito talvez pudesse agilizar sua emergência. O episódio é acusado de frases do tipo “você sabe com quem está falando?” e ameaças de demissão para cima de uma médica que acusou de trabalhar mal. Disse que já foi bem atendido em hospitais públicos. Pudera, no Brasil “o patrão” costuma se dar bem. E é assim que ele se sente: “vou reclamar como cidadão e como patrão”. Os termos são adequados? Comumente quando fala o monstro – e não o médico – não. E completou: “Ela não dá atenção para os pacientes e isso eu não vou aceitar na minha rede”. Dele? Estranho o uso que as pessoas fazem do português num país que se pretende republicano e democrático.

E diante do que se fala, chegamos ao mais recente fato. As questionáveis gravações trazidas a público pelo juiz Sérgio Moro no âmbito da Lava Jato. Ali Paes liga para Lula para lhe prestar solidariedade em relação ao caso da condução coercitiva. Ok. Mas precisava ter chamado Dilma de Fiona, Pezão de Shrek, destilar palavrões, humilhar Atibaia, acanalhar Maricá, zoar a justiça, desancar em palavrões etc…? Realmente, quando o monstro aflora, mesmo na intimidade, a gente se pergunta quem são nossos homens públicos e o que fazem quando ninguém os vê. O fim da história é bem conhecido: o monstro volta ao normal e obviamente declarações envergonhadas em tom de desculpas aparecem. “Entendi que, por causa das dificuldades, deveria ligar e ser gentil. Essa tentativa me levou a brincadeiras de profundo mau gosto, mas não passavam de brincadeiras. Comentários que não fazem parte da minha personalidade. Me geram arrependimento, vergonha. Não acho nada disso”. Perfeito Jekyll, não foi você não, foi o Hyde! O Hulk, o Id de Freud, o Cordial de Holanda ou qualquer outro… Menos o prefeito do Rio de Janeiro. Sei…

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