Do que vale mais uma “candidatura independente”?

Humberto Dantas

22 Outubro 2017 | 20h18

Valéria Monteiro é jornalista, modelo e bailarina de acordo com o perfil que a descreve no Wikipédia. Acumula conquistas importantes para o universo feminino, como ter sido a primeira mulher a apresentar o Jornal Nacional, bem como presenças marcantes em diversos telejornais da Globo, a maior emissora de TV do país. Foi âncora de uma das campanhas de José Serra à presidência, morou nos Estados Unidos e trabalhou na Rede TV. Recentemente ganhou destaque em vídeo, lançado em setembro, com mais de 200 mil visualizações no YouTube afirmando esperar que um partido tivesse a coragem de bancar sua candidatura independente à Presidência da República – o discurso se assemelha à aliança que Marina fez para adentrar no PSB em 2014, ou seja, não é lá grande novidade.

Tudo isso só acontece porque o país não permite que candidatos se apresentem fora das legendas. Caso contrário: nada de partido. Aparentemente. O movimento de Valéria é o #tamojunto, que a exemplo de tantos outros parece preocupado em renovar a política pela eliminação de “ranços perigosos” ao sistema. Dentre eles, aparentemente, os próprios partidos políticos. Como?

Tudo indica que a candidatura é muito mais um gesto de protesto respeitoso, protagonizado por uma profissional reconhecida, do que algo capaz de se tornar competitivo. Também em tese, ao que tudo indica, o partido que teria topado a empreitada é o PRP – Partido Republicano Progressista, cujo portal nacional na internet se orgulha de tratar do pedido de asfalto feito por um vereador de Goiânia ao prefeito da capital. Quando uma legenda destaca isso, com todo respeito ao pessoal do bairro Jardim Industriário II, é porque definitivamente é pequeno demais. Mas quem se importa? Pra quem deseja ser independente nanico é limosine, afinal de contas, é só para ter um lugar pra registrar a candidatura e pedir votos.

E esse é o problema. Não é eliminando os partidos que avançaremos. Na verdade, sequer sabemos o que o PRP fará com a possível filiação de Valéria. Sequer sabemos se ela terá a chance de clamar o “vote 44!”. Isso porque as legendas mudam de estratégia como quem troca de meias, e basta ver o que a candidatura de Bolsonaro tem protagonizado em relação a uma série de legendas de tamanhos semelhantes. A diferença, nesse instante, é que o deputado radical tem cerca de 20% das intenções de votos em algumas pesquisas e uma longa carreira eleitoral. Deve cair? Certamente sim, mas o fato é que tem. E Valéria?

A jornalista acredita e é livre para crer no que deseja, representando o movimento que preferir. Mas será que o brasileiro crê mesmo que é possível um candidato “independente” chegar ao poder e GOVERNAR? Collor foi eleito em 1989 por um partido nanico, o PRN, que mesmo sem precisar reeleger o presidente na eleição seguinte, teve um desempenho pífio na campanha de 1990 ao buscar vagas para a Câmara, e findou afundando em 1992. Sua relação com o Congresso era medonha, assim como aquela atribuída à ex-presidente Dilma Rousseff, que mesmo embarcada no gigante PT afastou-se do parlamento e não resistiu ao Congresso Nacional – que muitos míopes afirmam ser fraco.

A despeito da narrativa capaz de explicar o que houve com a ex-presidente, se um golpe, crime de responsabilidade ou uma crise de articulação política, o fato é que candidaturas independentes são mais do mesmo no universo surrado da política brasileira. São saídas fáceis para driblar a crise que o país enfrenta. Isso significa que acabar com os partidos, ou enfraquece-los, bem como ignorar a força das bancadas partidárias nos grandes parlamentos são atalhos tenebrosos para a nossa realidade política.

A saída está no fortalecimento das legendas e dos parlamentos, por meio de uma profunda discussão acerca de seus papeis na sociedade. Isso passa por muito mais transparência, por mais fiscalização, controle social e por ações que transformem carreiras individuais de parlamentares em ações partidárias coletivas, a despeito de tudo isso ir à contramão do que deseja e entende a sociedade. Isso mesmo: estamos acelerando para o abismo com medo do incêndio que está às nossas costas quando, na verdade, somos os verdadeiros bombeiros da crise. O gesto de Valéria, que apenas ilustra esse texto, bem como de qualquer brasileiro, de se aproximar da política é: louvável. Mas sinceramente entendo que a porta tomada foi equivocada, e “infelizmente” teremos que acreditar que partidos e parlamentos são essenciais ao desenho de democracia que criamos para nós, o que significa que eles precisam ser tomados e não combatidos.