Dia Municipal do Orgasmo

Eder Brito

18 de maio de 2016 | 18h27

“O sexo é diversão sadia e barata. Reduz as tensões cotidianas e até a violência urbana. O sexo é hoje tão importante para o Brasil quanto a democracia”. Adoro essa sequência de frases, mas não são de minha autoria. Quem as proferiu foi Quildônio Falcão, vereador fictício de Poço da Esperança, município também fictício. Quildônio foi o personagem interpretado por Paulo Gorgulho, ator que participou da série “O Dia do Amor”, exibido pela Rede Globo no longínquo ano de 2003. No folhetim televisivo, Quildônio celebrava a aprovação da lei que instituía o Dia do Amor na cidade, uma data voltada à celebração do sexo como um exercício de vivência plena da satisfação humana. E a inspiração dos autores veio do “mundo real”. Troque Quildônio Falcão por Arimatéia Dantas, que realmente foi vereador. Substitua Poço da Esperança por Esperantina, município que realmente existe no Piauí. E no lugar de “Dia do Amor”, utilizemos o “Dia do Orgasmo Municipal”, data que foi oficialmente instituída na cidade em 2005 e sempre é celebrada no mês de Maio.

 

Arimateia confessa, em vídeo publicado no YouTube no ano de 2014, que a ideia para o projeto de lei original surgiu depois de uma relação sexual. Preocupado com a  cara de insatisfação da parceira, ele decidiu fazer a pergunta: “Você gozou?”. A atípica preocupação com a satisfação da parceira, levou o então vereador a reflexões mais profundas. Segundo Arimatéia, “o machismo impregnado em toda a sociedade constrói respostas falsas e justificativas covardes para que o silêncio do orgasmo continue”. Ao longo de 10 anos da lei, a celebração da data já levou a Prefeitura a fomentar debates acerca da sexualidade, com políticas e ações que tentam desmistificar temas normalmente polêmicos, utilizando-se até de palestras ministradas por “profissionais do sexo”. Jornais franceses, espanhóis e a revista Playboy já foram fazer a cobertura in loco das comemorações nesse período.  “Eu tinha que fazer algo. O orgasmo é qualidade de vida! Pensei que muitos casais poderiam ser mais felizes e isso (conversar sobre o orgasmo) poderia fortalecer a família, os casais, a sociedade e o próprio Estado”, analisa Arimateia. “Se o machismo não deixa as pessoas físicas falarem, que o Estado faça a pergunta!”.

 

A data ficou famosa e incitou a reflexão de gente como Nelson Motta, jornalista, compositor e escritor que talvez resuma muito bem a potencial seriedade por trás de uma ideia que pode soar inicialmente estranha aos ouvidos mais tradicionais. Para ele “assim como o Dia das Mães, o Dia do Orgasmo deveria ser todo dia e em todo o Brasil. O que parece apenas uma bizarria divertida, na verdade é mais sério, mais educativo e socialmente mais importante do que a maioria absoluta das leis criadas por nossos prefeitos e vereadores”.

 

Enfrentamos períodos tão chatos, sombrios, incertos e cheios de demandas pouco agradáveis em nossa agenda política que a possibilidade de refletir sobre o próprio prazer deveria mesmo saltar aos olhos de forma positiva. Deleitar-se de si mesmo e do outro é parte integrante da agenda individual, mas na esfera pública, parece que fingimos que essa dimensão não existe ou só tratamos dela nos espaços coletivos errados, longe da possibilidade de tomada de decisões mais práticas. Nossas inevitáveis raízes culturais de culpa, pudor exagerado, machismo e vergonha-sei-lá-de-quê ainda nos atrasam e nos impedem de vivenciar coletivamente algumas pautas. Ainda estamos gozando de democracia no Brasil, mas estamos longe de atingir orgasmos múltiplos.