Desesperança

Eder Brito

18 de janeiro de 2017 | 19h08

O sujeito faz uma campanha bonita, consegue sensibilizar uma cidade inteira, angaria o voto de confiança de todo um município. Toma posse, senta na cadeira de Prefeito e no seu primeiro ato, decide entregar as chaves da cidade…. para Jesus Cristo. O Decreto, publicado em Diário Oficial, declara que a cidade pertence a Deus e que todos os setores da Prefeitura estarão sobre a cobertura do “altíssimo”. Caso verídico, ocorrido em Guanambi, na Bahia.

 

Outro sujeito chega ao segundo mandato como vereador, em uma das maiores cidades do Estado de São Paulo. Assume a presidência da Câmara Municipal e inicia o uso do cargo editando um Manual de Etiqueta que deverá ser seguido por todos os servidores do Legislativo. O documento determina padrões para roupas, maquiagem, comportamento. Inclui detalhes de maquiagem, acessórios, tipo de salto para sapatos femininos, cores de meia para os homens e até orientações para o aperto de mão ideal. Determina que as mulheres precisam tomar cuidado com rendas, babados e escolher esmaltes e batom em tons claros. Sacramenta que ninguém pode exibir o colo e as costas. O ano é 2017 e a cidade é São Bernardo do Campo, logo ali, no Brasil.

 

Ainda na Grande São Paulo, um sujeito eleito por quase 80% dos moradores de Embu das Artes é preso antes de tomar posse. Ele é acusado de ser um dos responsáveis por lavagem do dinheiro do tráfico de drogas do PCC, aquela mesma facção que vem comandando uma das piores crises na história do sistema carcerário brasileiro. Ali perto, em Osasco, 2/3 dos vereadores também foi parar na cadeia, acusados de organizarem um esquema criminoso e estelionatário, com funcionários fantasmas, desviando dinheiro dos cofres públicos. O Prefeito Eleito também estava na turma.

 

Voltando à Bahia, Messias Aguiar foi o segundo vereador mais votado em Ubaitaba. Segundo a Secretaria de Segurança Pública daquele Estado, a campanha foi financiada pelo tráfico de drogas. Ele foi preso um dia depois das eleições, mas tomou posse, algemado, em janeiro. Durante a posse, foi recebido como vítima por uma multidão que o julga inocente e que gritava “eu, eu, eu, Messias apareceu”. Em Foz do Iguaçu-PR, o Ministério Público Federal acusa cinco vereadores de receberem um “mensalinho” em troca de apoio político. Foram presos. Mesmo assim foram reeleitos, mesmo assim tomaram posse. Só não estão recebendo salário porque o Tribunal de Contas do Paraná produziu uma decisão apontando que vereador preso não pode receber salário. Óbvio e triste.

 

Infelizmente devo comunicar que eu não tenho espaço para reunir todos os exemplos de baixa qualidade intelectual, criminalidade ou imoralidade da gestão municipal no Brasil. Esse texto tem um certo limite de caracteres. E só estamos analisando os últimos três meses, desde que foram finalizadas as eleições até agora. E só estamos olhando para municípios, sem tocar em quaisquer assuntos do Governo Federal, nem da crise financeira dos Estados. E nem estamos analisando os pormenores das ações “estratégicas” de “prefeitos-gestores-não-políticos” que estão ajudando a desconstruir ainda mais as possibilidades de crença no exercício da boa política. Eu era otimista. Não sou mais. Talvez o Prefeito de Guanambi esteja certo, no fim das contas. Mais um pouquinho de religião em mim e eu também entregaria tudo nas mãos de Deus.

 

 

Tendências: