Democracia sem calcinha

Eder Brito

03 de dezembro de 2014 | 15h52

Em 1968, durante a realização do concurso Miss America, nos Estados Unidos, um grupo de 400 ativistas de movimentos feministas protestava contra a exploração comercial realizada contra as mulheres, que tinha no concurso um grande símbolo. Elas espalharam pelo local um monte de sutiãs, sapatos de salto alto, cílios postiços, maquiagem e vários outros acessórios que representam a “beleza feminina”. Os sutiãs nunca foram queimados, mas a mídia batizou a data de “Bra’Burning” e o acontecimento estará eternamente vinculado à luta pela igualdade de gênero.

Mais de 46 anos depois, foi a vez de uma brasileira utilizar uma peça íntima de roupa como símbolo deste debate. Lucimara Passos, vereadora de Aracaju pelo PC do B, protestou durante seu discurso em sessão da Câmara Municipal em Sergipe, na semana passada. Além de celebrar o Dia Internacional de Combate à Violência contra a Mulher, Lucimara protestou, erguendo a própria calcinha durante seu discurso, dando a entender que estava sem roupas íntimas por baixo do vestido e defendendo a liberdade feminina de portar-se e vestir-se como bem entender, sem sofrer julgamentos morais desnecessários.

O discurso e o protesto também foram na direção do vereador Agamenon Sobral, do PP. Uma semana antes, em discurso na Câmara, Agamenon compartilhou a história de uma noiva que foi a seu casamento na Igreja sem calcinha, com um vestido transparente. Depois de chamá-la de vagabunda, sugeriu que a tal mulher fosse espancada e tomasse um banho de sal grosso em seguida.

Não foi a primeira vez que Agamenon gerou polêmica com seus discursos durante o expediente da Câmara. Também já havia acusado as enfermeiras de um hospital público de Sergipe de não cumprirem suas cargas horárias. O vereador diz que as profissionais deixavam seus postos de trabalho junto com os médicos para fazer sexo em motéis da região, abandonando os plantões. A alegação gerou protestos da categoria em Aracaju.

Hoje enquanto este texto era redigido, um grupo organizou uma exposição de calcinhas na Praça Fausto Cardoso, em frente à Câmara de Aracaju. Um varal foi estendido e as participantes foram convidadas a pendurar suas respectivas peças íntimas. Tudo em protesto à atitude do vereador.

Pelo discurso no plenário com (sem?) a calcinha, a vereadora Lucimara tomou uma advertência por quebra de decoro parlamentar e foi informalmente acusada pelo Presidente da Câmara de “expor a Câmara ao ridículo”. No mesmo dia, o Instituto Data Popular em parceria com o Instituto Avon publicou uma pesquisa que comprova o machismo do brasileiro. Entre outras coisas, mais de 48% dos entrevistados acredita que é errado uma mulher “sair sozinha, sem o marido/namorado/ficante”, 68% dizem achar errado a mulher ir para cama no primeiro encontro e 76% criticam aquelas que têm vários ficantes. Outros 80% afirmam que a mulher não deve ficar bêbada em festas ou baladas. A pesquisa ouviu 2046 pessoas. Todos jovens, de 16 a 24 anos.

Tentei falar com os dois vereadores, mas não consegui localizar seus respectivos assessores. Segundo quem me atendeu, estavam todos envolvidos com a manifestação em frente à Câmara. Não precisa mais. Foi até melhor. Se os entrevistasse, desrespeitaria uma regra básica do jornalismo e não conseguiria ser “imparcial”. Daria os parabéns e desejaria boa sorte à Lucimara Passos na briga injusta que tem pela frente. E ao vereador Agamenon Sobral eu diria “Menos, menos…”. Menos Igreja e mais Câmara Municipal. Menos Bíblia, mais regimento interno e mais lei orgânica. Menos moralismo barato e mais política pública de verdade. Menos discursos de ódios e mais respeito às mulheres. Isso sim é atitude de macho.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.