Democracia sanguinária

Humberto Dantas

18 de julho de 2016 | 07h38

“Adoro” lembrar das eleições de 2008. Naquele ano, no domingo do primeiro turno estive na TV Cultura atendendo a um convite do jornalista Alexandre Machado. Debatíamos o pleito quando entrou uma chamada ao vivo de Brasília. Conosco entrou uma altíssima figura do Tribunal Superior Eleitoral falando com orgulho da colorida festa da democracia. Em tom poético, como muitos no Judiciário estranhamente adoram se reportar às coisas, parecia pintar um mundo colorido, falando em folclore, que em nada combina com a realidade violenta de nossas eleições. As pessoas que vivem nesse país acham que milhares se candidatam, milhões vão às urnas e simplesmente a festa “acontece”. Que nada!

Fosse do modo como os românticos pintam e não teríamos, nos últimos dois anos eleitorais, cerca de 40 mil soldados das forças armadas em mais de 300 cidades espalhadas pelo país garantindo a segurança do pleito – ou tentando. O que é isso? Eventos marginais num universo de glamour? Coisa alguma. Se somarmos os pedidos não atendidos de reforço veríamos que definitivamente o buraco é muito mais embaixo.

Para muito além do dia das eleições convivemos com a violência contra os (pré)candidatos e políticos em geral. Reportagens dos últimos anos veiculadas pelo Estadão, sob o formato de um especial denominado Sangue Político, e pela Carta Capital, mostram o rastro de violência contra representantes no país. Na segunda matéria, de autoria do jornalista Moacir Assunção, eu declarei como fonte: “A violência expõe a fraqueza expressiva das instituições formais. Crer na força, explorar aspectos culturais associados à lei violenta e forjada individualmente são características de uma sociedade que não compreende o verdadeiro sentido do contrato social”.

Assim, o que está por detrás desses casos não é o ódio e a resistência dos brasileiros aos representantes. A brutalidade ainda não chegou a esse nível bizarro, e espero que não chegue. O que parece claro é o poder do crime organizado – com os quais alguns políticos, inclusive, mantêm relações absolutas. O universo é assombroso e amedronta. No litoral de São Paulo, por exemplo, o Guarujá vive faz anos com um verdadeiro terror eleitoral. O blog Flit Paralisante enumerava, em 2012, ao menos cinco mortes num período de 15 anos em matéria intitulada: “Políticos mortos na Baixada Santista: Aqui reina a pistolagem, o vale tudo na política…Aqui partido político é sinônimo de organização criminosa”. E enumerava: “em 2010 o então vereador Luis Carlos Romazzini (PT) (…) foi executado com cinco tiros (…) em (…) 2008, o candidato a vereador Williams Andrade Silva (PP) (…) foi executado na Praia da Enseada (…) em (…) 2001, o vereador Ernesto Pereira (PTN) (…) foi morto com 12 tiros (…) em (…) 1997, o vereador Orlando Falcão foi morto a tiros em um bar.

Pois é. Não é assim que funciona uma sociedade que se pretende democrática. Mas infelizmente, seguindo na rota sanguinária, Agá Lopes Pinheiro, de 49 anos, pré-candidada a vereadora pelo DEM em Magé, estado do Rio de Janeiro, foi assassinada a tiros num bar semana passada. Desde novembro, 11 políticos ou pré-candidatos tiveram o mesmo destino brutal na Baixada Fluminense. Uma semana antes de Agá, dois políticos foram mortos em área dominada por milícias. Definitivamente, na festa folclórica descrita por nosso célebre magistrado ouvido na TV Cultura não faltam estampidos. Pena que esses não ganham o céu em colorido típico das festas mais populares sob o formato de fogos de artifício. O barulho ouvido e o tiro dado são outros. A cor que predomina nesses casos é o vermelho do sangue de nossa frágil e debilitada democracia.

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