Demissão comprida

Eder Brito

29 Abril 2015 | 21h05

Poucos patrões teriam coragem de demitir metade de sua equipe no meio de alguma tarefa ou projeto importante. Mas foi isso que fez Décio Ventura, prefeito de Ilha Comprida-SP. Decidiu trocar metade do secretariado quando começou o terceiro ano de sua gestão. Fez com que o ano de 2015 iniciasse de “cara nova”, trocando 4 dos 8 secretários. Trocou de gestores em pastas importantes como administração, finanças e desenvolvimento urbano.

Décio é experiente. É prefeito pela quarta vez em Ilha Comprida e já foi subprefeito de São Paulo, quando o então prefeito José Serra decidiu escolher pessoas com experiência em gestão municipal para gerir os distritos paulistanos. Calmo e analítico, diz que a troca foi motivada por “reclamações”. Não tolerava mais os dirigentes escolhidos dizendo que não havia dinheiro para fazer certas coisas. Além do orçamento municipal, a cidade recebe royalties da exploração de gás e petróleo na região. A ilha também é um dos municípios paulistas considerados estâncias balneárias pelo Governo Estadual, já que cumpre certos pré-requisitos definidos por lei, em relação a características ambientais, principalmente. Essa característica também garante uma verba maior em transferências estaduais para a promoção do turismo local. Dinheiro não podia ser desculpa para os gestores, portanto. Foram trocados.

Quem mora na região e acompanhou de perto a história via “rádio peão” diz que a demissão foi da noite para o dia, sem muita cerimônia. Ao telefone, sempre calmo e simpático, Décio diz que a troca ocorreu sem grandes crises e sem muitas “externalidades negativas” do ponto de vista político para o prefeito. “Em cidades grandes, este tipo de posição é ocupada por indicados políticos, mas em um município pequeno, quem ocupa os cargos são funcionários efetivos, concursados, de carreira na Prefeitura”, avalia o Prefeito, dizendo que são pessoas que sabem que ficarão pouco tempo na função.

Por falar em rádio, parte das informações que ajudaram Décio a tomar a decisão de demitir seus secretários surgiu graças a um programa radiofônico. Pelo menos uma vez por mês, o Prefeito escolhe um sábado e produz o seu próprio programa em uma emissora local. Ainda sem nome oficial, a iniciativa vai ao ar e abre as linhas de telefone para ouvir os moradores. Quem quiser pode ligar, questionando, sugerindo ou avaliando o trabalho do Prefeito e tem a oportunidade de conversar com ele. Uma espécie de “Voz do Brasil” municipal, mas com um formato bem mais informal. Foi de lá que surgiram muitas das percepções do Prefeito na hora de trocar metade do time.

Meio de comunicação inquestionavelmente democrático e acessível (ainda mais do que a internet), o rádio tem servido como método para manter a gestão de Décio mais próxima dos anseios diários da população. Isso só parece possível (ou mais simples) em municípios desse porte. Por lá são pouco mais de 10 mil habitantes. Ao contrário da “Voz do Brasil”, a “Voz de Ilha Comprida” não fica falando sozinha. Também ouve, dialoga e acaba até aceitando sugestões politicamente mais perigosas, como a que culminou com a saída de 50% do time de secretários. Missão ainda não cumprida, mas uma história sendo construída de maneira diferente, ao menos quando comparada com outras 5569 histórias municipais tão tristemente parecidas.