Debates eleitorais e o ‘politicamente correto’

Camila Tuchlinski

24 de outubro de 2014 | 08h00

Essa eleição parece ter sido mais longa do que as últimas que presenciamos no Brasil. Não sei se é só impressão minha. E, para finalizar mesmo os trabalhos, hoje será o dia do último debate entre os candidatos à presidência da República de 2014. Dilma Rousseff (PT) e Aécio Neves (PSDB) estarão, frente à frente, no estúdio da TV Globo, no Rio de Janeiro. O encontro tem a pretensão de ser de interesse da população, uma vez que alguns eleitores previamente escolhidos farão perguntas já selecionadas à ambos.

O debate vai muito além do debate. Muitas vezes o eleitor tem uma hora ou duas, que seja, para compreender propostas e ideias dos candidatos. Não é assim hoje e não foi outrora também! Os candidatos sempre tiveram muuuuita dificuldade em explicitar suas propostas e facilidade de sobra para o blá, blá, blá político. Separei alguns links ao longo do post (perdoem pela qualidade das imagens, pois alguns são bem antigos) para que você tenha uma retrospectiva histórica dos debates da história recente do Brasil.

Este aqui é um compilado de ‘melhores momentos’ de debates entre 1982 a 1998: https://www.youtube.com/watch?v=CVAiC2psgaE

Os debates recentes deste segundo turno de 2014 têm sido acalorados! É acusação de nepotismo pra cá, é defesa da paternidade de programa social pra lá. Palavras como mentiroso (a), leviano (a) se tornaram politicamente incorretas nos embates atualmente. E o que dizer de um candidato que chama o outro de desequilibrado ou filhote da ditadura? Com vocês… Maluf x Brizola: https://www.youtube.com/watch?v=SGNGgkII2lU Na época, os candidatos quase que interagiam com a plateia, que não se comportava, para desespero da mediadora, a jornalista Marília Gabriela.

Outra discussão que ficou marcada pelo nervosismo dos candidatos foi o debate entre Paulo Maluf e Marta Suplicy, para a prefeitura de São Paulo em 2000. No meio das falas, um manda o outro literalmente ‘calar a boca’: https://www.youtube.com/watch?v=cQWJ0foRQ2g

Em 2014, as regras para os debates eleitorais na televisão estiveram muito mais rigorosas do que antes. Os mediadores pediam para que os candidatos respeitassem o tempo de pergunta, resposta, réplica e tréplica de maneira sistemática. Muitos não conseguiam concluir antes do fim do cronômetro, fazendo com que os técnicos tivessem que cortar os áudios dos microfones. Pegando o nosso ‘túnel do tempo’, nos idos de 2000, o então candidato do PRONA, Enéas Carneiro (falecido agora), dava o exemplo de disciplina: https://www.youtube.com/watch?v=Kq7UNSUVujU

Ah, e só um ‘chorinho’. Lembram do debate da Globo ao governo do DF de 2010? A curiosa candidata Weslian Roriz assumiu o posto no lugar do marido, Joaquim Roriz, uma semana antes das eleições. Ele desistiu de concorrer ao governo do DF após ter sua candidatura barrada pela Lei da Ficha Limpa. Weslian proferiu a histórica frase: ‘eu quero defender toda aquela corrução’ (se estivesse vivo, Freud trabalharia com a hipótese de ato falho). Vejam no link só os melhores momentos: http://www.youtube.com/watch?v=17eh00Hf88g

Ao fazer essa singela pesquisa sobre a história dos debates na televisão brasileira, deu uma certa melancolia e tristeza. Melancolia em saber que em mais de 30 anos de democracia, as coisas mudaram (não necessariamente para melhor) no embate entre os candidatos. E tristeza em concluir que essas discussões efetivamente pouco contribuem para dar a certeza ao eleitor de fazer uma escolha boa. Assistir aos debates é importante, mas não o suficiente para que a população consiga apertar a tecla ‘confirma’ com plena consciência.

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