De Ralph Lauren em Paraisópolis

Humberto Dantas

10 de outubro de 2016 | 07h38

Alunos das faculdades em que leciono, ou lecionei, pedem para me acompanhar nos cursos de Iniciação Política que ofereço com um timaço de cientistas políticos nas periferias de São Paulo. Quando me apresento nas salas de aula, esse é o projeto do qual falo com mais orgulho. Não que outros tantos parceiros e empregadores não mereçam a mais expressiva das atenções, mas definitivamente onde sinto que faço a diferença, e onde aprendo demais, é no convívio com os jovens de ensino médio de projetos sociais e escolas públicas de lugares sobre os quais os políticos falam sem sequer saber a que estão se referindo – e olha que eu também não sei, pois é aparentemente fácil chegar, falar por três horas e partir.

É na periferia que as distâncias se tornam mais claras para mim. Primeiramente em termos geracionais. É do meu contato com esses jovens que extraio minha “juventude”, que passo a entender com maior clareza o quanto os discursos entre as décadas se fazem tão distantes. Se o projeto durar mais dez, vinte anos, os alunos terão sempre 16, 17, 18 anos. Por sinal, eles têm mais ou menos essa idade desde os meus 24 anos, quando entrei na primeira classe de faculdade para lecionar. E com 41 eu sempre tentarei compreender as diferenças.

A outra distância está associada à forma como vivem. Nas periferias o ritmo é outro, a vida é diferente daquela que se vive no centro. Sob o ponto de vista da chegada do Estado, da oferta de políticas públicas, da atuação dos agentes oficiais e sob a lógica estrutural a coisa é complicada. A vida é difícil, dura, cruenta, complexa – muito mais complexa que as regressões calculadas para dizer como o povo vive ou deve viver. E detalhe: no centro ela também é tensa. Aí está o desafio: de formas diferentes. E assim o objetivo maior é conviver, respeitar, construir, reconhecer e aprimorar. Esse parece ser o caminho razoável. Mas se o diferente deseja que o outro seja igual, a coisa vai degringolar. É derrota na certa!

Pois bem. Raramente atendo ao pedido dos alunos para me acompanharem. Periferia não é zoológico pra visitante ver como os “bichos vivem”. Também não é selva, pra se encontrar a ameaça em cada canto. Longe disso! Periferia é bairro, é dignidade, é alegria, é sonho, é mercado, é ação, é estilo, solidariedade, força, organização e vontade. Problemas? CLARO que sim. É óbvio! Mas vamos em frente… Esse é o desafio dos seres humanos em geral.

Causa ainda mais desilusão, mas infelizmente não causa estranheza, que o próximo prefeito de São Paulo sonhe que as pessoas possam utilizar roupa de grife francesa alguma vez na vida como sinal de dignidade e acesso. Causa ainda mais desilusão, que a imprensa continue correndo atrás do que pensa a primeira-dama toda vez que um novo homem é eleito, em pautas machistas dotadas de clichês assombrosos. Não causa nenhuma surpresa que um mundo apartado se revele – sobretudo quando dinheiro e voto têm relação tão estreita. A primeira dama não sabe onde fica o Minhocão, e portanto ele se torna inútil. A periferia, para ela, é Paraisópolis, uma das comunidades que, a despeito da acentuada carência, ainda é expressivamente assistida por uma tonelada de projetos sociais, reportagens e até novela. Tudo isso buscando levar àqueles cidadãos parte de seus direitos: perfeito. Mas também parte dos valores dos que entendem que ao doar um pouco de fortuna também podem contribuir com um pouco de seus princípios. Pergunta: quais deles? Por quê? Pra onde? Até quando? São verdades absolutas? Um bom filme pode ajudar: “Nascidos em Bordéis”, conta a história da fotógrafa bacana que desembarcou na Índia. Mas nada de spoiler – como nos ensinam alguns jovens – assista!

São Paulo vai além de Paraisópolis. Comunidades espalhadas pelos quatro cantos da cidade, incluindo o centro e lugares infinitamente mais afastados geograficamente, são ignorados pela empáfia. Paraisópolis, a despeito de seus profundos desafios, se torna comunidade clichê na boca de bacana. Colocar o pé por lá dá a um cidadão de primeira e única viagem o sentimento de que está “ligado no movimento”. Nada disso. A atitude blasé de Simmell em sua vida mental na Metrópole não permite a compreensão plena. E a partir disso, criamos filtros e passamos a ignorar. O que vale? Os nossos valores. E assim vamos chegar facilmente ao excluído desnecessário de Elimar do Nascimento, com um agravante. Por vezes, alguns “incluídos” são chamamos a falar. E quando falam, deixam ecoar o bizarro som do abismo que nos faz sonhar que um sujeito “será gente” quando vestir uma blusa com um cavalo e um jogador de polo equestre para, quem sabe, se tornar cidadão…