De onde vêm os vereadores?

Eder Brito

18 Agosto 2016 | 16h53

Meio encabulado, ansioso, o amigo me confessou o desejo, há quase dois anos atrás. Sempre achei que ele levava jeito, mas não tinha certeza de que chegaria àquele ponto. Disse que já não aguentava mais fingir a inexistência daquele sentimento: precisava aceitar sua vontade e comunicar ao mundo inteiro. Chegou o dia de decidir e ele assumiu: era o mais novo candidato a vereador da cidade. Desde o último dia 16 corre atrás de eleitores e promessas de votos, como tantos outros milhares de brasileiros fazem nesse exato momento.

 

Analogias forçosas à parte, o processo de assumir-se candidato(a) parece mesmo tão difícil como sair do armário. As pessoas não entendem o desejo. A priori ficam questionando porque é que você não pode ser “normal” como todo mundo, satisfazendo-se com o confortável lugar do não-candidato, não-filiado e não-engajado. “Não gosto de política!” e “Por que se envolver com essa sujeira da política?” (e suas variações) serão das afirmações perguntas mais recorrentes para qualquer candidato durante os próximos 43 dias, enquanto ocorrem as campanhas eleitorais nos municípios.

 

Há uns dias, convidado por um amigo participei de uma reunião com três candidatos a vereador, de três partidos diferentes, diante de uma plateia qualificada de empresários e outros representantes de segmentos de classe média-alta. Dois dos candidatos são “marinheiros de primeira viagem” em eleições e se engajaram numa rodada de quase quatro horas de debate, interação, perguntas e respostas. Grande parte de seu espaço de fala precisou ser utilizado para justificar os motivos de suas candidaturas, um discurso que às vezes parece um pedido de desculpas. “Perdoem-me por ser candidato. Eu também não queria, mas foi inevitável. Minha história me levou a isso, não tinha como evitar”. Às vezes alguns discursos soam assim de tanto medo de admitir que se gosta de política, que a política é necessária e que aproximar-se desse processo não precisa sempre ter conotação negativa.

 

Outros dois amigos no ABC paulista também estão tentando a sorte em suas cidades. Os dois têm muita vontade e pouquíssimo orçamento. Também precisam utilizar muito do tempo para explicar “o que vão fazer diferente?”, “por que é que devo acreditar em você?” e “se vão roubar quando entrarem ‘lá’”. As agendas de pré-campanha e campanha transbordam de oportunidades para as pessoas dizerem o que pensam da classe política e deixam pouco espaço para discussões específicas. É só mais um indicador de que deixamos de acreditar na democracia representativa. Ao invés de celebrar a coragem dos homens e mulheres que estão emprestando seus nomes e suas vidas para esse momento da política municipal, nós nos colocamos diante deles com desconfiança.

 

As campanhas não são apenas para eleger pessoas a cargos eletivos. São oportunidades de diagnóstico do que acontece com nossas cidades. Do mesmo jeito que só falamos de esporte de alto rendimento durante os Jogos Olímpicos, parece que só nós importamos enfaticamente com os problemas da cidade quando chega o período eleitoral. Por que então não aproveitar também para enaltecer as pessoas que decidiram se arriscar nessa (ainda) ingrata função de candidatar-se? Por que só candidatos precisam mudar de postura? Por que não cobrar, mas cobrar se envolvendo e utilizando a vontade dessas pessoas para amplificar o que não conseguimos fazer sozinhos no restante do período fora desses parcos dias de campanha?

 

Talvez os vereadores que nós tanto desejamos venham exatamente da vontade dessas pessoas que têm muita disposição, pouco tempo de campanha e nenhum recurso financeiro. Nossa preguiça de ouvi-los e ajudá-los é culpada pela manutenção do que nunca muda? Também. Principalmente quando, por exemplo, votamos nos mesmos vereadores há cinco, seis, sete legislaturas. Por que fazemos isso e clamamos por mudança e renovação, simultaneamente?

 

Não seria indelicado de manifestar apoio a um candidato específico nesse espaço, mas vou sugerir um voto. Vote em alguém novo, onde seja realmente fácil de perceber a necessidade do seu apoio. E se ele/ela não for eleito, que você ajude a construir nele uma sensação de liderança e representatividade que vai perdurar além do período de campanha. E quem sabe não comecemos a questionar até mesmo a possibilidade de que a vereança seja uma função voluntária em nossas cidades. Se a representatividade já estiver garantida nessas relações mais legítimas, vamos começar a perceber que os nossos municípios não precisam remunerar quem já exerce a cidadania naturalmente. Tarefa que talvez seja difícil em grandes capitais e regiões metropolitanas, mas fácil de ser debatida em 90% dos municípios brasileiros, todos de pequeno e médio porte.