Da ‘glória’ ao ‘tanque’ (de guerra!) – tende ‘piedade’ e ‘paciência’ na eleição no Rio de Janeiro

Humberto Dantas

06 de outubro de 2016 | 12h11

Escrevo de longe, portanto não posso dizer que estou certo de tudo o que observo aqui. Mas gostaria de apontar que a eleição no Rio de Janeiro é aquela que mais me gera esperança e, paradoxalmente, mais me gera tristeza. Vou começar pela parte boa, falar sobre o que poderia ser bom e terminar com o que existe de pior. Vamos lá.

Debates sobre a democracia têm como parâmetro essencial uma tentativa de arrefecer o poder econômico na escolha dos candidatos, na forma como se apresentam ao eleitorado, e na influência que um desequilíbrio financeiro poderia gerar. Inclua nessa lógica monetarista aspectos adicionais como recursos públicos trazidos para as campanhas. Tempo de rádio e TV, numa eleição curta, domínio da máquina pública numa eleição mais pobre, tudo isso faria diferença e ajudaria demais um determinado candidato. Não parece que foi isso o que houve no Rio de Janeiro. Pedro Paulo (PMDB) terminou o primeiro turno em terceiro lugar. Em tese tinha as máquinas federal e estadual, e indiscutivelmente tinha a máquina municipal nas mãos. O alinhamento dos “planetas governamentais” seria o melhor do mundo em termos de recursos, mas ele tinha mais. Contava com o maior tempo de exposição na mídia, o que para um pleito de 35 dias de aparição é muito valioso. Tinha também mais dinheiro, pois foi quem mais arrecadou. Resultado? Água, como diriam os amantes de batalha naval. Ou melhor: a campanha naufragou. Seja porque o eleitor não está tão feliz assim com uma cidade que melhorou muito, seja porque suas histórias pessoais são abomináveis e, nesse caso, a arrogância de bancá-lo foi, pra dizer o mínimo, ridícula e infantil. Em pleno século XXI, eleger numa capital com gente descolada, um marmanjo que sapecou bordoadas na ex-esposa é dose pra dinossauro. Dançou. E foi isso? Alguém vai dizer.

Pois bem. E quem foi para o segundo turno? O que existe de extremo. O que existia de mais conservador e o que havia de mais progressista no pleito. Nada contra ser o que as pessoas precisam e desejam ser, mas no Rio de Janeiro temos quase o que se viu nos Estados Unidos em termos de posição. Temos um Trump x Sanders em termos ideológicos. Mas ninguém aqui está comparando os políticos de lá, com os daqui. Falo de posicionamento, mas olha que as falas amansadas de Trump se equivalem ao ritmo menos santo que Crivella tentou emprestar ao próprio discurso no primeiro turno. Mas e agora que polarizou? É aqui que eu entendo que poderia ser bom. Poderia!

Teríamos a chance de debater a cidade como palco do que existe de mais conservador e o que existe de mais progressista. Seria bom, saudável, elevado para o posicionamento. Tudo isso se estivéssemos preparados pra tal espetáculo, pro debate e pra DEMOCRACIA como valor. E não estamos. Um rolê nas redes sociais e tudo se torna claro, e ao mesmo tempo extremamente turvo. A forma como a baixaria tomou conta das falas e apoios de populares e celebridades é de assombrar. O “medo” desnuda o ódio. Pra piorar: o eleitor do meio, o sujeito que está no leito entre tais margens agudas e distantes está cada vez mais desiludido e desencantado da tarefa que tem no dia 30 de outubro. Não foram poucas as postagens de amigos da cidade em que a foto dos dois candidatos era coberta pela frase: “tá difícil pra você? Imagina pro eleitor daqui”. Que pena, que perda de oportunidade pra boa conversa. O Rio de Janeiro, das maravilhas, é também a cidade de algumas trágicas mazelas.

 

Ps. desculpas ao povo do Rio pelo trocadilho infame com os bairro da cidade no título desse texto.