Coxinhas, marolinhas e nhém, nhém, nhém

Eder Brito

17 de junho de 2015 | 22h55

Uma imagem vale mais que mil palavras, mas na política, uma série pequena e rápida de palavras podem significar uma derrocada maior do que uma sequência de mil imagens negativas. O “estupra, mas não mata” de Paulo Maluf ainda ecoa e ecoará por muito tempo quando nos referirmos ao ex-Prefeito de São Paulo. A “marolinha” de Luiz Inácio Lula da Silva é um diagnóstico contestado até hoje. O “nhém, nhém, nhém” e os “aposentados vagabundos com menos de 50 anos” apontados pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso ainda são lembrados quase 20 anos depois.

Mais recentemente, o “aparelho excretor” de Levy Fidélix entrou para os anais da história eleitoral. Na política, a palavra lançada ao vento perde o controle ainda mais rapidamente do que aquelas proferidas por reles mortais. Não adianta editar o que foi dito, explicar o contexto ou dizer que foi brincadeira. Falou, tá falado.

Na semana passada, foi a vez de Fernando Haddad, prefeito de São Paulo entrar para a história das frases infelizes de políticos brasileiros. É provável que o prefeito estivesse apenas tentando parecer engraçado ou “moderno”, ao tentar utilizar as redes sociais para interagir com uma linguagem que todo mundo usa por aqui: o humor. Não deu certo. A frase da coxinha repercutiu negativamente e não ajudou muito a já desgastada imagem do político petista.

Lula, FHC e Maluf não foram os primeiros e provavelmente Haddad não será o último. Na era em que as idas de celebridades à padaria viram notícia e no momento em que qualquer cidadão com acesso à internet vira cientista político, muitos agentes públicos não são bem orientados ou ainda não aprenderam a gerir plena e integralmente a sua imagem (virtualmente ou não). Esquecem do peso que o discurso ganha quando os emissores de certas mensagens ocupam posições de destaque.

Isso também acontece em municípios pequenos, com repercussão em nível local. Em 2011, em pleno terceiro ano de governo, Arízio Fernandes, prefeito de São José de Mipibu, no Rio Grande do Norte, gravou uma frase na memória da gestão pública. Em entrevista a um jornal local, disse que não tinha “varinha de condão para resolver todos os problemas” da cidade e que aceitaria o presente caso alguém tivesse uma disponível.

Questionado sobre atrasos no material escolar da rede pública em entrevista a uma rádio local, em 2014, Henrique Rinco, prefeito de Caçapava-SP perdeu a paciência e também falou besteira. Defendeu-se dizendo que “nunca deu prejuízo” ao serviço público pois “sempre trabalhei, não sou rico, nunca levei meus filhos ao SUS, nunca aproveitei de dinheiro do SUS, nunca aproveitei de escola pública”.

Ari Artuzi, ex-prefeito de Dourados-MS foi condenado a três anos de prisão e pagamento de indenização por crime de racismo. Quando era prefeito, Ari deu entrevista a uma rádio dizendo que a Prefeitura estava “fazendo serviço de branco, serviço de gente”, ao enaltecer um de seus feitos na gestão municipal.

Quem está na política, conhece os riscos que assumiu. É preciso encontrar o equilíbrio nas ações, mas também no discurso. Os cargos pedem e o tamanho da missão exige mais seriedade e controle. Depois não adianta imitar o então presidenciável Eduardo Jorge durante debate em 2014 e dizer que não tem nada a ver com isso.

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