Corrupto x Sonegador – a vida em Belo Horizonte está complicada

Humberto Dantas

25 Outubro 2016 | 10h11

Não sei se eu seria feliz como eleitor de Belo Horizonte esse ano. Não que como paulistano eu tenha alguma razão para comemorar a maturidade política de candidatos e seus discursos, mas em BH a coisa ficou apertada. O par de candidatos que chegou ao segundo turno optou por protagonizar o que existe de pior em matéria de campanha. Nos debates um chama o outro de sonegador, e esse outro acusa o um de corrupto. Parece que é fato que Alexandre Kalil deve milhares de reais de IPTU à prefeitura que deseja governar. Assim como seu adversário, João Leite aparece em listas de um esquema de Furnas que a “celeridade” da justiça insiste em retardar. Parece possível entender porque tanta gente se indigna com o Judiciário e transforma figuras como Sérgio Moro em super-herói. Em terra de cego quem tem olho é rei, ou melhor: no Brasil, juiz que parece cumprir a lei com vigor vira herói de parcelas do povo. Até quando? Mas voltemos pra BH.

No limite da comprovação das acusações, o eleitor belo-horizontino tem que escolher entre o sonegador e o corrupto. Seria isso? Pra piorar, em noite quente de debate, Khalil disse: “roubo, roubo mas não peço propina”. No calor das discussões é realmente difícil encontrar o que faça o eleitor sair de casa no domingo. E aqui vamos assistir a mais um capítulo do ódio do brasileiro pela política.

João Leite e Alexandre Kalil parecem promover assim outra guerra: a política X a não política. É óbvio que a “não política” é um modismo tosco pra agradar um eleitorado que um dia perceberá que, ele mesmo, é extremamente político e precisa agir e se responsabilizar mais por sua realidade. Estamos longe demais disso. Mas, enquanto não cumprimos a nossa parte, candidatos emplacam discursos de “não político”. Em BH, Kalil seria uma espécie de “Dória desbocado”. Está longe de ser o elegante paulistano – e isso não são qualidades, apenas características. O mineiro incorpora um espírito mais arquibancada, e a adjetivação aqui é intencional, pois ele foi presidente do Clube Atlético Mineiro nos tempos mais gloriosos da história recente do Galo. Ali, por sinal, em passado mais distante, João Leite foi o número 1. Não o presidente, mas o goleiro. E agora parece que por ter ido para o segundo lugar nas pesquisas, numa campanha que liderou desde o início, tentará trazer Aécio Neves para o interior do jogo de forma ainda mais nítida. Quem? Pois é.

Em sua última eleição o senador derrotado na corrida presidencial fez quase dois terços dos votos da capital mineira. Perdeu no Estado, mas ganhou na cidade. Ajudaria? O quanto apareceu até agora? O quanto a vitória de João Leite ajuda Aécio a conter a ascensão de Alckmin no PSDB? João Leite já disse que não é o Dória de Aécio. Pudera: está na política faz anos como parlamentar e já foi candidato derrotado na cidade outras vezes. E Dória, por mais que partidariamente seja o poste de Geraldo, debutando eleitoralmente em 2016, é poste do eleitor que não gosta de política na cidade. É a aposta de quem embarcou no discurso do afastamento. E nesse caso, se o poste de parte expressiva dos paulistanos foi Dória, em BH seria Kalil – o anti-político desbocado, ou seja, o anti-político na política e o anti-Dória na elegância. E nesse caso, supostamente sem a máquina estadual e a força de alianças verificadas em São Paulo, Kalil é realmente o que existe de mais afastado em relação à política.

Mas que fique claro, para governar, assim como Dória já se mostra extremamente político, o Galo Forte e Brigador também terá que provar ser. Se for eleito e continuar agressivo o céu azul dos governantes novos lembrará apenas o que o anil representa pros atleticanos – guerra!