Cores de Atalaia

Eder Brito

22 de outubro de 2014 | 15h38

Há quase 20 anos morria Pedro Collor de Mello. Quatro tumores no cérebro mataram aquele que foi um importante personagem da política nacional nas últimas décadas. Entre outras coisas, Pedro denunciou o esquema de corrupção envolvendo PC Farias, processo que culminou no impeachment de seu irmão, então Presidente da República, Fernando Collor de Mello.

Pedro não sobreviveu para ver o irmão-desafeto reeleito Senador da República em 2014. Não teve tempo de opinar sobre o fato de que aquele político insano que ele ajuda a descrever no livro “Passando a Limpo” (junto com a jornalista Dora Kramer) vai continuar gozando do direito de opinar em importantes questões do país até o ano de 2022, como membro do Congresso Nacional, democraticamente eleito pela população alagoana. Também não sobreviveu a tempo de ver seu próprio filho se tornar vice-prefeito de Atalaia, município do leste alagoano.

Fruto do casamento de Pedro com Thereza, Fernando Lyra Collor é filiado ao PSD e o mais novo braço direito do Prefeito José Lopes de Albuquerque, o Zé do Pedrinho, que comanda o executivo municipal desde setembro de 2014, mês passado. Antes deles, a Prefeitura vinha sendo comandada por Manoel da Silva Oliveira  (o popular “Professor Mano”) e por seu vice Élvio Alves Brasil, que tiveram o mandato cassado pelo TRE, acusados de improbidade administrativa. Mano e Élvio são do PTB, atual partido de… Fernando Collor. Durante as eleições de 2012, a dupla teve o apoio do Senador que preferiu não fazer o mesmo pelo sobrinho. A disputa foi acirrada. José e Fernando, agora empossados, receberam 10.526 votos, apenas 484 a menos que os 11.010 votos de Mano e Élvio, agora cassados.

Sem o apoio do tio, Fernando Lyra (que durante a campanha de 2012 nem utilizou o sobrenome mais famoso) declarava-se incentivado e representante de outro político brasileiro, seu avô. Além de sobrinho de Collor, filho de Pedro e Thereza, ele é neto de João Lyra, o ex-Deputado Federal mais rico do país. Lyra, grande empresário do setor sucroalcoleiro em Alagoas, deveria ter tentado a reeleição agora em 2014, mas desistiu. Com seu grupo de empresas envolvido em falências, problemas pessoas e financeiros o fizeram desistir da candidatura. É provável que agora aposte no neto para manter a família ativa na política.

Fernando Lyra, por sua vez, parece já ter aprendido que, além do apoio do avô, é essencial ter o apoio de Collor se quiser ser bem sucedido na política em Alagoas. Durante a campanha ao Senado, parece ter esquecido do abandono em 2012. Selou o acordo de paz familiar, declarando publicamente o apoio ao tio.

Atalaia é cidade-símbolo de muita coisa. Foi por lá que existiu, segundo conta a história oficial do município, o tal Quilombo dos Palmares. Foi também lá na região que Domingos Jorge Velho, bandeirante português um dia conseguiu capturar o Zumbi dos Palmares e destruir o famoso vilarejo quilombola, iniciando a ocupação “diferenciada” que hoje configura o grupo de municípios que compõem aquela região do leste de Alagoas.

Irônico pensar que João Lyra, avô de Fernando, sogro de Pedro, pai de Thereza também esteja respondendo ao STF (Supremo Tribunal Federal) por manter trabalhadores em condições análogas à escravidão naquela região. Irônico pensar que a cassação dos mandatos que alçaram Fernando à vice-Prefeitura de Atalaia tenha ocorrido no mesmo período em que foi oficializado o apoio à candidatura do tio e a desistência da candidatura do avô. Irônico pensar que, mesmo depois de tanto tempo e tantos episódios, todos estes personagens e membros da família continuem sendo referência política no município e no estado. Irônico pensar. Pensar é mesmo irônico.

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